Gênica https://genica.com.br/ Thu, 12 Jun 2025 22:15:51 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9 https://genica.com.br/wp-content/uploads/fav-genica-150x150.png Gênica https://genica.com.br/ 32 32 Diversidade biológica e funcional: a diferença e a importância para o solo https://genica.com.br/diversidade-biologica-e-funcional/ https://genica.com.br/diversidade-biologica-e-funcional/#respond Thu, 12 Jun 2025 22:15:51 +0000 https://agro.genica.com.br/?p=3807 O solo, além de possuir uma diversidade biológica e funcional, é um sistema complexo composto por diferentes fases: uma porosa, preenchida por ar e/ou água, e outra sólida, que inclui frações minerais, matéria orgânica morta e viva — esta última conhecida como biota do solo (Silva et al., 2023). A fração orgânica, chamada de matéria […]

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O solo, além de possuir uma diversidade biológica e funcional, é um sistema complexo composto por diferentes fases: uma porosa, preenchida por ar e/ou água, e outra sólida, que inclui frações minerais, matéria orgânica morta e viva — esta última conhecida como biota do solo (Silva et al., 2023). A fração orgânica, chamada de matéria orgânica do solo (MOS), tem ganhado destaque em estudos, eventos e debates, especialmente por seu impacto direto na produtividade agrícola e na saúde dos solos tropicais. A seguir, vemos um esquema que representa essa composição.

Figura 1: Representação dos principais compartimentos de matéria orgânica do solo (MOS). CSA = carbono solúvel em água.

Fonte: Adaptado de Stevenson (1986, 1994) e Perminova et al. (2019).
Figura 1: Representação dos principais compartimentos de matéria orgânica do solo (MOS). CSA = carbono solúvel em água.
Fonte: Adaptado de Stevenson (1986, 1994) e Perminova et al. (2019).

A chamada “fase viva” do solo abriga uma enorme diversidade de microrganismos, formando um verdadeiro reservatório genético microbiano. Esses organismos são fundamentais para processos como a ciclagem de nutrientes e a decomposição da matéria orgânica (Jiao et al., 2019).

Essa riqueza de organismos torna o solo um ecossistema multifuncional. É nesse contexto que entram os conceitos de diversidade biológica e diversidade funcional, frequentemente mencionados em discussões sobre saúde do solo — e muitas vezes confundidos. Neste texto, vamos esclarecer as diferenças entre eles e mostrar quando cada um se aplica.

O que é diversidade biológica e diversidade funcional?

Imagine uma escola de engenharia. Lá, há muitas pessoas, mas todas exercem a mesma função: são engenheiros. Nesse exemplo, temos baixa diversidade biológica (poucas “espécies”) e baixa diversidade funcional (mesmas funções). Agora pense em um homem, um pássaro e um fungo. Três organismos distintos, que exercem papéis completamente diferentes na natureza. Aqui, temos alta diversidade biológica e também alta diversidade funcional.

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Nas lavouras e florestas, as plantas são capazes de selecionar e moldar as comunidades de microrganismos ao redor de suas raízes, buscando benefícios diretos dessa convivência (Quevedo et al., 2023). Essa região da raiz, chamada rizosfera, abriga um microbioma complexo. Os microrganismos que vivem ali ocupam nichos específicos, desempenham funções distintas e interagem entre si e com o ambiente — promovendo a solubilização, transporte e absorção de nutrientes (Bettiol et al., 2023).

Essa seleção se dá por meio da liberação de exsudados radiculares, compostos orgânicos que alteram as características físico-químicas da rizosfera — uma interface crítica de até 3 mm ao redor das raízes (Garbeva; Weisskopf, 2020). Esses compostos podem trazer benefícios, mas também atrair pragas e patógenos.

Por isso, práticas como consórcios, rotação de culturas e uso de mixes de cobertura ganham importância. Elas aumentam a diversidade de espécies no sistema, o que gera também uma maior diversidade funcional — essencial para a saúde do solo.

A evolução nas formas de estudar o microbioma do solo

As técnicas utilizadas para estudar a diversidade microbiana no solo evoluíram bastante nas últimas décadas. Dos métodos clássicos de cultivo de bactérias, passamos a ferramentas moleculares cada vez mais precisas (Quevedo et al., 2023). Entre as técnicas tradicionais estão a medição do carbono da biomassa microbiana, o cultivo in vitro e análises da atividade microbiana como respirometria e atividade enzimática (Quevedo et al., 2023).

As enzimas mais comumente analisadas são a arilsulfatase, 𝛽-glicosidase e fosfatase, associadas à ciclagem de enxofre, carbono e fósforo, respectivamente. No entanto, essas técnicas têm limitações. Por exemplo, menos de 1% da diversidade microbiana pode ser cultivada em laboratório, e há variações sazonais na atividade enzimática (Quevedo et al., 2023).   

Com os avanços da biologia molecular, ferramentas como qPCR (Reação em Cadeia da Polimerase em Tempo Real) e sequenciamento genético em larga escala permitiram grandes saltos na análise da abundância e diversidade microbiana no solo (Fierer, 2017). Esses métodos revelam novos organismos, identificam seus nichos e ajudam a entender funções até então desconhecidas no ecossistema solo.

Diversidade de cima, saúde por baixo

Para promover uma alta diversidade funcional no solo, e não apenas biológica, é essencial ter diferentes tipos de raízes coexistindo no sistema — em fases variadas de desenvolvimento (crescimento, consolidação, senescência). O uso de mixes de cobertura, por exemplo, estimula o desenvolvimento de raízes com diferentes profundidades, tamanhos, velocidades de crescimento e perfis de exsudação. Isso cria ambientes favoráveis para diferentes microrganismos se desenvolverem, atuando em funções que beneficiam o crescimento vegetal e ajudam na supressão de pragas e doenças.

Ou seja: não basta ter muitas espécies de microrganismos no solo se apenas algumas dominam. É preciso haver diversidade acima do solo, para que exista diversidade funcional abaixo dele.

Conclusão

Em suma, compreender a diferença entre diversidade biológica e diversidade funcional é essencial para promover a saúde do solo de forma eficaz. Enquanto a diversidade biológica se refere ao número de espécies presentes, a diversidade funcional diz respeito às diferentes funções que esses organismos desempenham no ecossistema. Ambas são importantes, mas é a funcional que garante a realização dos processos-chave para a fertilidade do solo, como a ciclagem de nutrientes, a decomposição da matéria orgânica e a supressão de patógenos.

Para alcançar esse equilíbrio funcional, é fundamental manejar o sistema de cultivo com práticas que favoreçam a diversidade de plantas — como consórcios, rotação de culturas e mixes de cobertura. Essas estratégias ampliam a variedade de exsudatos radiculares e criam microambientes que estimulam o desenvolvimento de comunidades microbianas mais equilibradas e eficientes. Assim, promover diversidade acima do solo é uma das formas mais eficazes de assegurar um solo saudável e produtivo abaixo dele.

Referências bibliográficas

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Estresse abiótico: impactos na produção agrícola https://genica.com.br/estresse-abiotico-impactos-na-producao/ https://genica.com.br/estresse-abiotico-impactos-na-producao/#respond Fri, 06 Jun 2025 20:13:06 +0000 https://agro.genica.com.br/?p=3797 O crescimento e o desenvolvimento das plantas são frequentemente comprometidos por condições adversas, conhecidas como estresse abiótico ou biótico. Esses estresses podem ter origem biológica, quando causados por organismos como lagartas, percevejos, fungos e bactérias — sendo então classificados como estresses bióticos. Já os estresses abióticos são desencadeados por fatores ambientais, como temperatura extrema, deficiência […]

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O crescimento e o desenvolvimento das plantas são frequentemente comprometidos por condições adversas, conhecidas como estresse abiótico ou biótico. Esses estresses podem ter origem biológica, quando causados por organismos como lagartas, percevejos, fungos e bactérias — sendo então classificados como estresses bióticos. Já os estresses abióticos são desencadeados por fatores ambientais, como temperatura extrema, deficiência hídrica e salinidade, por exemplo.

O estresse abiótico é definido como qualquer condição ambiental que limite o potencial de crescimento e produtivo das plantas. As respostas das plantas a esses estresses são dinâmicas e complexas, podendo ser reversíveis ou não (Cramer et al. 2011). Ao longo dos séculos, os avanços nas ciências agrárias têm contribuído significativamente para mitigar os efeitos do estresse abiótico, oferecendo aos produtores maior segurança frente às variações ambientais. Um exemplo notável é o desenvolvimento de tecnologias de correção da acidez do solo, como a aplicação de calcário e gesso, que viabilizou a expansão da agricultura tropical em solos originalmente limitantes, como os encontrados em grande parte do território brasileiro.

Apesar desses avanços, os fatores ambientais ainda representam um grande desafio para a produção agrícola. Já em 1982, Boyer estimava que as perdas decorrentes do estresse abiótico poderiam comprometer até 70% do potencial produtivo global. Complementando essa visão, a FAO (2007) apontou que apenas 3,5% das terras agricultáveis do planeta não apresentam nenhuma restrição ambiental significativa

Neste texto serão expostos os fatores ambientais mais impactantes à produção agrícola e explicados como atuam na limitação do potencial produtivo das plantas, entregando ao leitor as informações necessárias para traçar estratégias de manejo para mitigação do estresse abiótico.

Alterações nas plantas

As formas de estresse abiótico podem ser divididas em quatro categorias: estresse térmico, estresse salino, estresse hídrico e nutricional. Será discutido mais detalhadamente cada um nos parágrafos seguintes:

Imagem 1: Catergorias de estresse abiótico nas plantas

Fonte: Adaptado de Khalid et al. (2021).
Imagem 1: Catergorias de estresses abióticos nas plantas
Fonte: Adaptado de Khalid et al. (2021).

Estresse térmico: frio, congelamento e calor

A primeira categoria do estresse abiótico que vamos explorar é o estresse térmico, responsável por poder causar diversos efeitos diretos nas plantas, como necrose, descoloração, escurecimento e rompimento de tecidos, além de comprometer o crescimento e dificultar a germinação das sementes. Também são comuns os efeitos indiretos, incluindo a redução do pegamento de grãos, antecipação ou atraso na colheita, diminuição da taxa fotossintética e menor eficiência na absorção de água (Didonet, 2009).

O dano por frio será dependente da sensibilidade das diferentes partes da planta às baixas temperaturas. A integridade da membrana celular, por exemplo, é um fator que está diretamente relacionado a essa sensibilidade reduzida (Levitt, 1980), e é regulada por sua composição (principalmente na concentração de ácidos graxos insaturados) (Quinn, 1988). Plantas que conseguem resistir mais às baixas temperaturas aumentam a expressão de enzimas que promovem alterações nas propriedades físico-químicas de suas membranas, alterando sua permeabilidade e causando diferenciais iônicos e de pH, ultimamente reduzindo a ATP (Levitt, 1980).

A capacidade de lidar com temperaturas congelantes varia entre plantas. Enquanto plantas de origem tropical e subtropical, como milho, algodão, soja, manga, arroz e tomate, são mais sensíveis ao congelamento, espécies de clima temperado, como videiras, macieiras, figueiras, aveia e trigo são mais tolerantes, mas ainda contam com variabilidade entre espécies. Ademais, a tolerância ao congelamento não é uma característica inerente à estas espécies, pois as plantas ativam diferentes processos fisiológicos e bioquímicos durante o resfriamento do ambiente até alcançarem as temperaturas mais baixas em uma espécie de aclimatação (Khalid et al, 2021). Em experimentos conduzidos em centeio, quando as plantas eram expostas à temperatura de -5ºC sem aclimatação, elas não sobreviveram, mas quando foram expostas às temperaturas de 2ºC por 7-14 dias, elas conseguiram suportar temperaturas de até -30ºC posteriormente (Fowler et al.,  1977).

Para prevenir danos por congelamento (dano à membrana celular) em baixas temperaturas, as plantas produzem diferentes osmólitos protetores como lipídios, prolina, glicina-betaína e açúcares, aumentando sua concentração no interior das células e/ou membranas (Khalid et al., 2019).

Plantas que são expostas a altas temperaturas passam por diversas mudanças e ajustes em seu metabolismo para lidar com essa condição, essas adaptações ocorrem em diferentes escalas de tempo e em vários níveis fisiológicos. A exposição ao calor extremo por longos períodos, entretanto, pode causar danos severos ao organismo e levá-lo à morte. Estes danos e sua severidade estão diretamente relacionados ao estádio de desenvolvimento da planta, à susceptibilidade da espécie e com os processos ativos no momento. Mas os danos causados pela exposição a temperaturas extremamente elevadas não estão restritos ao nível celular, e alteram muitos processos complexos e estruturas que, quando danificadas ou alteradas, também podem conduzir à morte da planta (Hall, 2000).

Essas mudanças que ocorrem sob extremo calor envolvem a modificação de lipídios e a produção de espécies reativas de oxigênio (EROs) (HALL, 2000); como explicado por Taiz e Zeiger (2017), as EROs são moléculas altamente reativas produzidas naturalmente pelas plantas pela redução parcial do oxigênio durante processos metabólicos como a respiração e fotossíntese, sendo não apenas subprodutos citotóxicos, mas elementos importantes na regulação de respostas vegetais a diversos sinais ambientais, como no caso do calor.

Proteínas também são afetadas, dado que cada uma possui uma faixa ótima para seu funcionamento, sendo desativadas quando a temperatura excede essa “faixa de operação”, alterando a atividade de enzimas e aumentando a produção de espécies ativas e reativas de oxigênio. Muitas enzimas, como a superóxido dismutase e ascorbato peroxidase, são produzidas para lidar com as espécies reativa, mas as mesmas são pouco eficientes em manejar as espécies ativas, que predominam em tempo extremamente quente. Como consequência do aumento da concentração dessas espécies ativas há a redução da fotossíntese, aumento do estresse oxidativo e alterações no movimento de fotoassimilados, que podem, mais uma vez, conduzir à morte da planta (Hall, 2000).

Entretanto, diferentemente das alterações induzidas pela exposição ao frio, muitos genes estão envolvidos na expressão de mecanismos de tolerância ao calor. A expressão desses genes pode ser ativada por outros estresses comumente combinados ao estresse térmico, como o estresse hídrico e o estresse por radiação, mas as respostas a todos esses estímulos são muito similares (Khalid et al., 2019).

Os esforços de pesquisadores atuais concentram-se na identificação desses genes; uma vez identificados, será mais fácil diferenciar quais respostas são desencadeadas sob altas temperaturas das respostas induzidas por outros estresses (Nobel, 1999).

Estresse salino

A salinização do solo é um fator de estresse abiótico que compromete o crescimento e o desenvolvimento vegetal. A elevação dos níveis de íons como Na⁺ e Cl⁻ além dos valores considerados normais pode desencadear alterações celulares, afetando processos metabólicos essenciais, como a fotossíntese e a germinação das sementes. Esse desequilíbrio pode causar danos aos tecidos vegetais e, em casos mais severos, levar à morte das plantas (Balasubramaniam et al., 2023).

A alta salinidade do solo é um problema particularmente frequente em regiões áridas e semiáridas, onde representa um grande obstáculo à produção agrícola ao reduzir as áreas cultiváveis disponíveis. Estima-se que aproximadamente 20% das lavouras de sequeiro e 50% das lavouras irrigadas sejam impactadas por esse fator (Flowers, 2004; Munns, 2002). No entanto, a utilização de variedades resistentes surge como uma estratégia viável para mitigar os impactos da salinidade nessas regiões (Flowers, 2004).

Grande parte das culturas agrícolas atuais não apresenta bom desempenho em solos com alta salinidade. Culturas como tomate e arroz são particularmente sensíveis a esse estresse. Os efeitos adversos da salinização começam com um estresse osmótico de curto prazo, seguido pelo acúmulo progressivo de íons fitotóxicos, o que compromete a fisiologia vegetal a longo prazo (Ullah; Bano; Khan, 2021).

Quando expostas a condições salinas, as plantas enfrentam inicialmente uma redução do potencial hídrico na região radicular, o que compromete a condutividade da água para o interior das células vegetais. Esse efeito resulta, sobretudo, na limitação do crescimento vegetal (Munns, 2005). A exposição a longo prazo em um ambiente com alta salinidade provoca o acúmulo de íons tóxicos, como Na⁺, Cl⁻ e SO₄²⁻, que prejudicam a absorção de nutrientes e intensificam os danos às células e tecidos vegetais(Isayenkov; Maathuis, 2019).

Os impactos negativos do estresse salino se manifestam de diversas formas. Morfologicamente, observa-se redução no crescimento, clorose e comprometimento da germinação das sementes. Em nível fisiológico, há inibição da fotossíntese e desequilíbrio nutricional. Já os efeitos bioquímicos incluem estresse oxidativo, aumento do vazamento de eletrólitos e desorganização das membranas celulares (Ji; Tang; Zhang, 2022)

Uma das estratégias mais comuns das plantas para lidar com a salinidade envolve o acúmulo de solutos orgânicos compatíveis, como prolina, açúcares solúveis, glicina betaína e polióis. Esses compostos desempenham um papel fundamental na proteção celular, atuando como osmoprotetores, facilitando o ajuste osmótico intracelular e auxiliando na neutralização das espécies reativas de oxigênio (EROs), além de preservar a integridade das membranas sem comprometer o metabolismo celular (Sharma et al., 2019).

O desenvolvimento de cultivares com maior tolerância à salinidade tem sido um dos principais focos do melhoramento genético em culturas de interesse agrícola, ambiental, hortícola e econômico. Tanto os métodos convencionais de melhoramento quanto as abordagens avançadas de engenharia genética têm contribuído significativamente para a obtenção de plantas mais resistentes ao estresse salino (Balasubramaniam et al., 2023)

Estresse hídrico: seca e alagamento

A água é um recurso essencial para todos os organismos vivos e, no caso das plantas, sua presença é indispensável para o funcionamento de diversos processos fisiológicos. De acordo com Kramer e Boyer (1995), plantas herbáceas possuem cerca de 90% de seu peso fresco composto por água. Esse elemento desempenha um papel fundamental na manutenção do turgor celular, facilitando a respiração e atuando como solvente para uma ampla variedade de moléculas, minerais, íons e elementos essenciais. Além disso, a água é a principal fornecedora de elétrons para a fotossíntese, garantindo o suprimento energético necessário ao crescimento vegetal.

Vamos apresentar agora a segunda categoria do estresse abiótico, o hídrico (também conhecido como deficiência hídrica). Esse estresse ocorre quando a perda de água pela planta supera sua capacidade de absorção, resultando em um desequilíbrio dos potenciais hídricos entre diferentes partes do vegetal e ocasionando em uma competição por água entre os tecidos da planta. Em condições de déficit moderado, os tecidos em crescimento ou aqueles metabolicamente ativos tendem a competir mais eficazmente pela água disponível, uma vez que estão produzindo material celular e a elevada concentração de solutos favorece a absorção.  Como o crescimento vegetal depende diretamente da manutenção da turgescência celular, a perda desse estado provoca sintomas visíveis, como o murchamento das folhas. Vale destacar que menos de 5% da água absorvida pelas plantas é utilizada diretamente em processos metabólicos, reforçando a importância da regulação hídrica, especialmente em fases fenológicas críticas (Didonet, 2009).

A escassez de água no solo compromete diversas etapas do desenvolvimento vegetal, interferindo na fotossíntese, no crescimento radicular e outros. Em casos extremos, a deficiência hídrica pode levar ao fechamento dos estômatos como mecanismo de defesa, reduzindo a transpiração e causando alterações anatômicas e fisiológicas que afetam negativamente o desempenho da planta. Se essa condição persistir, pode culminar na morte do vegetal. (Campos; Santos; Nacarath, 2021). Segundo Boyer (1982), a escassez de água é um dos fatores mais limitantes à produção agrícola, sendo responsável por aproximadamente 50% das perdas de produtividade em nível global.

A ocorrência de inundações tem se intensificado em diversas regiões do mundo, consequência de sistemas de drenagem ineficientes, degradação da terra e mudanças climáticas (Manghwar et al., 2024). O estresse hídrico por excesso de água pode se manifestar de duas formas principais: o estresse por submersão, quando toda a planta fica imersa na água, e o estresse por alagamento, em que apenas parte da estrutura vegetal (caules e folhas) permanece submersa (Nishiuchi et al., 2012).

O encharcamento do solo pode ser ocasionado por fatores como irrigação excessiva, drenagem inadequada ou chuvas torrenciais (Kozlowski e Pallardy, 1997). Em algumas regiões, 280 mil hectares são afetados por alagamentos, enquanto 25 mil estão constantemente encharcados em razão da má drenagem e do vazamento de canais de irrigação. Além disso, solos com altos teores de sódio podem sofrer encharcamento crônico, pois esse elemento, em concentrações elevadas, restringe a movimentação da água e do ar pelos poros do solo, prejudicando a disponibilidade hídrica e a oxigenação radicular (Khalid et al., 2019).

Quando submetidas a solos encharcados, as plantas enfrentam dificuldades desde a germinação até o desenvolvimento reprodutivo, com impacto direto no crescimento vegetativo e aceleração do processo de senescência. O excesso de água reduz as trocas gasosas, dificultando a respiração celular e a fotossíntese, tornando a planta mais suscetível a doenças fúngicas e limitando a absorção de nutrientes. Em condições de submersão, a produção de ATP (adenosina trifosfato), essencial para a geração de energia, é drasticamente reduzida, podendo levar à morte celular ou comprometer processos vitais como crescimento e fotossíntese. Além disso, a presença de águas turvas impede a penetração da luz, restringindo a capacidade fotossintética das plantas (Manghwar et al., 2024).

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Estresse: metais pesados

A crescente concentração de metais pesados (MPs) nos solos, impulsionada por atividades antropogênicas, representa uma séria ameaça à produtividade agrícola. O acúmulo desses elementos compromete significativamente o crescimento das plantas, afetando tanto a produtividade das culturas quanto a saúde humana. Diversos estudos relatam os efeitos negativos de metais como cádmio (Cd) , zinco (Zn), chumbo (Pb), cromo (Cr) e arsênio (As). Nesse contexto, microrganismos associados às plantas têm se mostrado aliados promissores, pois podem potencializar a capacidade das espécies vegetais na fitorremediação de ambientes contaminados não apenas com MPs, mas também com radionuclídeos e compostos orgânicos xenobióticos, como compostos voláteis, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos e alcanos derivados de petróleo (Lanna et al., 2021).

Em solos corrosivos, o transporte de metais pelas raízes é intensificado. Embora metais como ferro, manganês, cobre e zinco sejam nutrientes essenciais para as plantas, quando presentes em excesso, podem comprometer o desenvolvimento radicular, reduzir a eficiência fotossintética, dificultar a absorção de água e inibir a ação de diversas enzimas, podendo, em casos extremos, levar à morte da planta (Khalid et al., 2019).

Nesse cenário, o zinco (Zn) é um bom exemplo. A ultrapassagem do limite de toxidade do Zn, geralmente está associada à poluição ambiental provocada por atividades industriais e agrícolas, como emissões provenientes de fundições, descarte de resíduos de mineração e o uso excessivo de fertilizantes ou pesticidas que contenham zinco. Apesar de ser um micronutriente essencial envolvido em diversos processos fisiológicos, quando acumulado em níveis elevados, o Zn torna-se fitotóxico. Suas altas concentrações afetam negativamente a fotossíntese, comprometem a atividade e a integridade das membranas celulares, resultando em queda na produtividade e crescimento atrofiado das culturas (Tsonev; Lidon, 2012).

Embora o excesso de metais no solo cause sérios danos às plantas, muitas espécies desenvolveram resistência fisiológica e hereditária, permitindo sua sobrevivência mesmo em ambientes com elevada saturação de metais, inclusive metais pesados (Khalid et al., 2019). As plantas que possuem a capacidade de lidar com as altas concentrações de metais nos solos são divididas em duas categorias: excludentes e acumuladoras. Essas plantas são classificadas em duas categorias principais, de acordo com sua estratégia de tolerância: excludentes e acumuladoras.

As excludentes empregam diversos mecanismos para evitar a entrada dos metais, como a imobilização do alumínio na parede celular das raízes, o bloqueio da absorção na membrana plasmática, a exsudação de compostos orgânicos capazes de quelar os metais no solo e o efluxo radicular dos elementos absorvidos (Ma et al., 1997; Andrade et al., 2011). Já as acumuladoras absorvem os metais e os armazenam em compartimentos específicos da planta, como os vacúolos, reduzindo assim sua toxicidade (Khalid et al., 2019).

Conclusão

O estresse abiótico é um conjunto de fatores de imenso impacto na produtividade agrícola no Brasil e no mundo, e estão presentes em todos os ambientes cultivados hoje. Entender os impactos desses estresses possibilita que o produtor conheça as limitações de sua área e qual o manejo necessário para a mitigação dos mesmos, quando possível.

Hoje existem inúmeras ferramentas que auxiliam o produtor a se prevenir contra os impactos negativos do estresse abiótico, como a calagem para a neutralização de metais tóxicos como o alumínio, o gesso para o condicionamento em subsuperfície, possibilitando que as raízes atinjam camadas mais profundas, tornando as plantas mais resistentes à secas, variedades mais ou menos sensíveis a ambientes mais salinos, programas de previsão do tempo e calendarização do plantio para maximizar o potencial produtivo, entre outros. Essas ferramentas são todas embasadas no conhecimento acima citado. O estresse abiótico sempre foi um empecilho ao ser humano e à agricultura, e continuará presente por toda a história.

Referências bibliográficas

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Doenças em pomares: diagnóstico e estratégias de controle microbiológico https://genica.com.br/doencas-em-pomares/ https://genica.com.br/doencas-em-pomares/#respond Fri, 30 May 2025 20:24:41 +0000 https://agro.genica.com.br/?p=3789 A fruticultura brasileira ocupa uma posição estratégica na economia agrícola, não apenas pelo fornecimento interno de frutas frescas e processadas, mas também pela crescente presença nos mercados internacionais. No entanto, o sucesso dos pomares está diretamente ligado à sanidade vegetal, especialmente frente ao constante desafio representado pelas doenças causadas por fungos, bactérias e vírus. Esses […]

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A fruticultura brasileira ocupa uma posição estratégica na economia agrícola, não apenas pelo fornecimento interno de frutas frescas e processadas, mas também pela crescente presença nos mercados internacionais. No entanto, o sucesso dos pomares está diretamente ligado à sanidade vegetal, especialmente frente ao constante desafio representado pelas doenças causadas por fungos, bactérias e vírus. Esses agentes patogênicos podem comprometer desde o vigor das plantas até o valor comercial dos frutos. Nesse cenário, o diagnóstico precoce das doenças e a adoção de estratégias eficazes de controle tornam-se fundamentais para garantir produtividade, qualidade e sustentabilidade. Entre essas estratégias, destaca-se o controle microbiológico, uma abordagem cada vez mais valorizada por sua eficiência e menor impacto ambiental.

Além de reduzir o uso de defensivos químicos convencionais, os métodos biológicos têm demonstrado alta capacidade de supressão de patógenos, ao mesmo tempo em que fortalecem os mecanismos naturais de defesa das plantas. No entanto, para que esses recursos sejam bem aplicados, é imprescindível que os produtores e técnicos agrícolas saibam identificar corretamente as doenças presentes no pomar e entender como os agentes biológicos podem ser incorporados ao manejo integrado.

Neste artigo, abordaremos os principais métodos de diagnóstico fitossanitário em pomares e exploraremos como o controle microbiológico pode ser uma alternativa viável, eficaz e sustentável para evitar perdas significativas.

A importância do diagnóstico precoce de doenças em pomares

Um diagnóstico eficiente é o ponto de partida para qualquer estratégia de controle fitossanitário bem-sucedida. Em pomares, onde a longevidade das plantas e o retorno financeiro por hectare são fatores críticos, a detecção antecipada de doenças é essencial para preservar a estrutura produtiva e manter a sanidade do solo e da copa ao longo do ciclo produtivo.

As doenças em frutíferas, como a pinta preta nos citros (Guignardia citricarpa), o cancro europeu em macieiras (Neonectria galligena) e a antracnose em mangueiras (Colletotrichum spp.), entre outras, apresentam sintomas que muitas vezes se confundem com deficiências nutricionais ou estresses ambientais. Por isso, o diagnóstico visual deve sempre ser complementado por análises laboratoriais quando possível. O uso de ferramentas tecnológicas como sensores remotos, imagens de drones com câmeras multiespectrais e aplicativos de campo tem evoluído significativamente, permitindo maior precisão e rapidez na identificação de áreas afetadas.

Outro recurso importante para o diagnóstico é a capacitação contínua das equipes de campo. Técnicos bem treinados conseguem reconhecer sinais sutis de doenças, como alterações em folhas, manchas iniciais, deformações ou queda prematura de frutos. Amostras suspeitas podem ser coletadas e enviadas a laboratórios especializados em fitopatologia, onde técnicas como PCR (Reação em Cadeia da Polimerase), cultura em meio seletivo e microscopia são utilizadas para confirmar o agente causal.

Com o diagnóstico em mãos, torna-se possível classificar a gravidade da doença, entender sua dinâmica de disseminação e escolher a melhor estratégia de controle, ajustando o manejo de acordo com a realidade do pomar e o estágio fenológico da cultura.

Imagem 1: Sintoma de pinta preta nos citros (Guignardia citricarpa).

Fonte: Revista Campo & Negócios
Imagem 1: Sintoma de pinta preta nos citros (Guignardia citricarpa).
Fonte: Revista Campo & Negócios

Desafios no controle químico e a necessidade de alternativas sustentáveis

Historicamente, o controle de doenças em pomares foi baseado no uso de fungicidas e bactericidas químicos. Embora esses produtos ofereçam controle eficaz em curto prazo, sua aplicação contínua tem levado a problemas como resistência de patógenos, desequilíbrios microbiológicos no solo e resíduos em frutos que dificultam a comercialização em mercados exigentes. Além disso, o custo elevado e a crescente regulamentação sobre defensivos químicos têm pressionado os produtores a buscar soluções mais sustentáveis.

Congregga Pro

Sanidade de plantas, equilíbrio no sistema

Gênica

Os fungicidas de contato e sistêmicos, quando utilizados de forma repetitiva, podem selecionar populações resistentes de fungos, como já se observou com espécies de Alternaria, Botrytis e Phytophthora. O uso inadequado também compromete microrganismos benéficos presentes no solo e na superfície das plantas, interferindo negativamente na dinâmica ecológica do pomar.

Com a ampliação do debate sobre a agricultura regenerativa e os impactos ambientais do modelo convencional, ganha espaço o conceito de manejo integrado de doenças (MID), que combina diferentes estratégias de controle — cultural, físico, genético, químico e biológico — de forma complementar e racional. O MID busca equilibrar eficácia no controle fitossanitário com a preservação ambiental, reduzindo a dependência de insumos químicos e minimizando o risco de resistência de patógenos. Essa abordagem integrada considera o ambiente de produção como um sistema dinâmico, onde o conhecimento sobre o ciclo das doenças, as condições climáticas e o manejo do solo e das plantas orienta a tomada de decisão. Dentro dessa perspectiva, o controle microbiológico desponta como um pilar central, ao oferecer ferramentas que agem de forma seletiva sobre os patógenos, respeitando os organismos benéficos, promovendo o equilíbrio biológico e fortalecendo a resiliência do agroecossistema.

Imagem 2: O controle biológico é um dos pilares fundamentais do MID.

Fonte: ResearchGate
Imagem 2: O controle biológico é um dos pilares fundamentais do MID.
Fonte: ResearchGate

Controle microbiológico: conceito, agentes e mecanismos de ação

O controle microbiológico consiste no uso de microrganismos benéficos — como fungos, bactérias e vírus — para inibir, competir ou parasitar agentes causadores de doenças. Diferente dos defensivos químicos, esses agentes agem por meio de interações biológicas complexas, como a produção de substâncias antimicrobianas, ocupação de nichos ecológicos e ativação de mecanismos de defesa nas plantas.

Entre os fungos mais utilizados no controle de doenças em pomares, destaca-se o gênero Trichoderma, conhecido por sua capacidade de colonizar a rizosfera e a superfície das folhas, atuando como antagonista direto de diversos fitopatógenos. Espécies como Trichoderma harzianum e Trichoderma asperellum são aplicadas via solo ou foliar e têm demonstrado bons resultados contra patógenos como Fusarium, Rhizoctonia e Sclerotinia.

As bactérias do gênero Bacillus, como Bacillus subtilis e Bacillus amyloliquefaciens, também são amplamente utilizadas por sua habilidade de formar biofilmes, produzir compostos antifúngicos e estimular a produção de fitoalexinas (atuam no sistema de defesa) nas plantas hospedeiras. Essas bactérias podem ser aplicadas via pulverização foliar e em tratamento de mudas, agindo preventivamente e fortalecendo a imunidade vegetal.

Além dos agentes antagonistas diretos, também existem microrganismos promotores de crescimento (MPCPs), como Pseudomonas fluorescens e Azospirillum brasilense, que embora não ataquem diretamente os patógenos, melhoram a saúde da planta, tornando-a menos suscetível às infecções. Outro campo promissor são os vírus entomopatogênicos e fungos entomopatogênicos, que controlam insetos vetores de doenças, como moscas das frutas e cigarrinhas, reduzindo a entrada de patógenos no pomar.

Imagem 3: O uso de Bacillus subtilis na citricultura promove o crescimento das plantas e contribui para a saúde do solo.

Fonte: Coopercitrus
Imagem 3: O uso de Bacillus subtilis na citricultura promove o crescimento das plantas e contribui para a saúde do solo.
Fonte: Coopercitrus

Integração do controle microbiológico ao manejo fitossanitário em pomares

A adoção do controle biológico em pomares não deve ocorrer de forma isolada, mas integrada às demais práticas agrícolas. O sucesso depende de fatores como o ambiente do pomar, o estágio fenológico das plantas, a população do patógeno, a qualidade do solo e o histórico da área.

Uma das primeiras estratégias é o manejo do solo, pois a presença de matéria orgânica, boa estrutura física e equilíbrio microbiológico favorecem a sobrevivência e o estabelecimento dos agentes biológicos. Práticas como adubação verde, cobertura morta e rotação de culturas são aliadas importantes nesse processo. O uso de compostos orgânicos enriquecidos com microrganismos, como os biofertilizantes líquidos, também contribui para criar um ambiente propício ao controle natural.

Na parte aérea, o uso de caldas biológicas e biofungicidas comerciais pode ser incorporado ao calendário de pulverizações, especialmente em períodos críticos de infecção, como florada e enchimento de frutos. O monitoramento constante do pomar e o mapeamento de áreas com maior incidência de doenças permitem uma aplicação mais direcionada e eficiente dos produtos microbiológicos.

É importante destacar que os agentes biológicos são sensíveis a condições ambientais como radiação solar, temperatura e umidade, e por isso, o horário de aplicação e a formulação do produto devem seguir a recomendação do fabricante. Em geral, aplicações ao entardecer ou em dias nublados garantem melhor colonização e ação dos microrganismos.

Outro aspecto relevante é a compatibilidade dos produtos microbiológicos com os insumos convencionais utilizados no manejo. Nem todos os produtos químicos são prejudiciais aos biológicos, mas é preciso atenção às misturas em tanque e ao intervalo de aplicação. É importante ficar atento às tabelas de compatibilidade e recomendações técnicas específicas.

Por fim, a educação continuada dos produtores, técnicos e trabalhadores rurais é essencial para consolidar o uso do controle biológico como parte da rotina de manejo. Iniciativas como dias de campo, cursos de capacitação e acompanhamento técnico são fundamentais para garantir que o potencial dos agentes microbiológicos seja plenamente aproveitado, com resultados consistentes e duradouros.

Conclusão

O diagnóstico correto e precoce das doenças em pomares é o alicerce para um manejo fitossanitário eficaz, capaz de proteger a produção e garantir qualidade dos frutos. Nesse contexto, o controle microbiológico surge como uma alternativa promissora ao modelo tradicional baseado em agroquímicos. Além de ser uma estratégia compatível com os princípios da agricultura regenerativa e da produção sustentável, o uso de microrganismos benéficos oferece vantagens como redução de resíduos, preservação da biodiversidade e melhora na saúde do solo.

A integração desses agentes ao sistema de produção exige conhecimento técnico, planejamento e comprometimento com boas práticas agrícolas. Mas os resultados, tanto econômicos quanto ambientais, justificam o investimento. Com o avanço da biotecnologia e o acesso cada vez maior a soluções microbianas eficientes, os pomares brasileiros têm a oportunidade de fortalecer sua produtividade com mais equilíbrio.

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As mudanças climáticas e a agricultura https://genica.com.br/mudancas-climaticas-e-a-agricultura/ https://genica.com.br/mudancas-climaticas-e-a-agricultura/#respond Fri, 23 May 2025 21:07:26 +0000 https://agro.genica.com.br/?p=3783 As mudanças climáticas constituem uma crescente ameaça à cadeia de produção de alimentos global e postula novos desafios a diversos setores da sociedade, principalmente o agropecuário. Para este setor, direcionar o foco às adaptações necessárias para mitigar os estresses nas lavouras é de suma importância para garantir a sustentabilidade da produção de alimentos, e devem […]

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As mudanças climáticas constituem uma crescente ameaça à cadeia de produção de alimentos global e postula novos desafios a diversos setores da sociedade, principalmente o agropecuário. Para este setor, direcionar o foco às adaptações necessárias para mitigar os estresses nas lavouras é de suma importância para garantir a sustentabilidade da produção de alimentos, e devem ser feitas com o uso intensificado de todo o conhecimento científico disponível (FAO, 2015).

Neste texto, buscaremos expor alguns dos impactos que as mudanças climáticas trazem à agricultura e quais os caminhos que já são ou podem ser adotados para mitigar essas ameaças.     

Conceito: mudança x variabilidade climática

É comum que o conceito de mudança climática seja confundido com a variabilidade climática. A variabilidade climática é natural e se refere às flutuações nas condições climáticas que ocorrem em períodos mais curtos, como de ano para ano ou de década para década. Essas variações podem incluir anos ou meses mais quentes ou mais frios, sendo influenciadas por fenômenos climáticos naturais, como El Niño e La Niña. Por outro lado, mudanças climáticas envolvem alterações a longo prazo, que persistem por décadas ou séculos, como as variações nas médias de temperatura anuais ao longo de décadas e séculos (MARIN, 2024).

Segundo o relatório de fevereiro de 2025 do NOAA (National Centers for Environmental Information), com base no histórico de leituras de temperaturas anuais, 2024 foi o ano mais quente já registrado. Além disso, o ranking dos dez anos mais quentes da história não inclui nenhum ano anterior a 2015. Isso evidencia que estamos vivenciando uma mudança climática, apesar das variações naturais de ano para ano. O ranking dos anos mais quentes é o seguinte: 2024 (1º), 2023 (2º), 2016 (3º), 2020 (4º), 2019 (5º), 2017 (6º), 2015 (7º), 2022 (8º), 2018 (9º, empatado) e 2021 (9º, empatado).

Em janeiro de 2025, a temperatura média global da superfície terrestre e oceânica foi 1,33°C (2,39°F) acima da média do século XX, que era de 12,0°C (53,6°F), marcando o janeiro mais quente nos 176 anos de registros globais.

Gráfico 1 – Anomalias acumuladas em 2025 em comparação com os dez anos mais quentes já registradas
Fonte: NOAA, 2025
Gráfico 1: Anomalias acumuladas em 2025 em comparação com os dez anos mais quentes já registradas
Fonte: NOAA, 2025

Efeitos das mudanças climáticas na agricultura brasileira

O impacto do aquecimento global sobre as plantas pode ser dividido em dois tipos de efeitos, conforme Droogers et al. (2004): os fisiológicos e os de interação planta-ecossistema. Esses efeitos podem ser tanto positivos quanto negativos e precisam ser compreendidos para o desenvolvimento de tecnologias capazes de mitigar as mudanças climáticas.

Prevê-se que o aumento da concentração de CO₂ na atmosfera tenha efeitos diretos sobre a fisiologia das plantas, uma vez que esse gás é essencial para o metabolismo vegetal. Em níveis elevados, o CO₂ pode induzir o fechamento parcial dos estômatos, reduzindo a perda de água por transpiração. Esse fenômeno pode trazer benefícios, como o aumento da produtividade, a melhoria da eficiência no uso de recursos e a menor suscetibilidade a alguns patógenos fúngicos. No entanto, a interação entre a elevação da concentração de CO₂ e o aumento da temperatura pode comprometer esses efeitos positivos, tornando essencial a avaliação conjunta desses fatores para reduzir incertezas quanto ao seu impacto na agricultura (FIGUEIREDO; GONDIM; ARAGÃO, 2017).

No que se refere aos efeitos da interação planta-ecossistema, o aumento das emissões de gases de efeito estufa (GEE) provoca o aquecimento global e, consequentemente, altera padrões climáticos, como regime de chuvas e intensidade dos ventos. Esses fatores geram impactos expressivos na agropecuária. No Brasil, alguns dos mais observados incluem o abortamento de flores em culturas como café, feijão e laranja, resultando em redução da produtividade; queda na produção de leite; maior incidência de abortos em porcas prenhas; e aumento na mortalidade de pintos de um dia (Assad, 2021).

Na produção de grãos, o déficit hídrico crescente tem afetado principalmente as lavouras de milho segunda safra e soja, causando perdas significativas de produtividade, especialmente no Sul do país e nos estados de Goiás e Mato Grosso do Sul. Para efeito de comparação, a estiagem no Rio Grande do Sul reduziu a produção de soja em mais de 40% em 2020, enquanto as perdas na cultura do milho superaram 30% (Emater/RS apud Assad, 2021). O principal fator associado à queda na produtividade, especialmente nos grãos, é a deficiência hídrica, diretamente influenciada pelo aumento das temperaturas e pelas mudanças no regime de chuvas.

Uma análise de risco de perda de produção conduzida pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) em 2012 indicou que, entre as principais culturas agrícolas, apenas a cana-de-açúcar se beneficiaria do aumento da temperatura. Já culturas como algodão, milho, soja, feijão, girassol, café e arroz sofreriam perdas de produtividade, sobretudo em decorrência do estresse hídrico. Para mitigar esses impactos, é essencial a adoção de sistemas de produção mais resilientes e adaptados às novas condições climáticas, garantindo maior segurança para a produção de grãos no país.

Gráfico 2: Cenários de risco de perda de produtividade de diferentes culturas no Brasil (linha de base = 1976‑2005; cenários para os anos 2020, 2050 e 2070)

Fonte: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), 2012
Gráfico 2: Cenários de risco de perda de produtividade de diferentes culturas no Brasil (linha de base = 1976‑2005; cenários para os anos 2020, 2050 e 2070)
Fonte: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), 2012

O aumento da temperatura também impacta a incidência de pragas e doenças nas plantas cultivadas, por meio de efeitos diretos e indiretos sobre a planta hospedeira, o patógeno e a interação entre ambos. Além disso, a elevação das temperaturas pode alterar a ação de agentes de controle biológico e o comportamento dos vetores. As mudanças ambientais influenciam ainda a distribuição geográfica e a duração dos ciclos de patógenos e insetos, aumentando significativamente seus impactos nas lavouras (GHINI; HAMADA, 2008).

Com as mudanças climáticas, eventos extremos como ondas de calor e secas prolongadas tornam-se mais frequentes e intensos, ameaçando a segurança alimentar e nutricional das regiões afetadas. No Brasil, as áreas mais vulneráveis a esses impactos são a Amazônia e o Nordeste, onde se observa a redução das zonas de baixo risco climático para a produção agrícola (ASSAD et al., 2019).

Regenera: Um novo sistema para grandes resultados! Gênica

Os caminhos para o enfrentamento das mudanças climáticas

A adaptação da agricultura às mudanças climáticas pode seguir dois caminhos principais. O primeiro envolve a melhoria dos sistemas de produção, com a recuperação de pastagens degradadas e a adoção de modelos produtivos integrados dentro de uma mesma propriedade, como a integração lavoura-pecuária (ILP), lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e pecuária-floresta (IPF), entre outros. Esses sistemas diversificados proporcionam benefícios econômicos, produtivos e ambientais, mas também representam desafios para os produtores, devido à complexidade da gestão e à necessidade de um amplo conhecimento técnico. O objetivo, no entanto, é promover sinergia entre os diferentes componentes e usufruir das vantagens de cada cultura. O plantio de árvores, por exemplo, seja exóticas ou nativas, além de contribuir para a fixação de carbono, pode gerar renda adicional ao produtor e favorecer a preservação de corpos d’água. Isso garante maior resiliência contra períodos de estiagem prolongada, geadas e ondas de calor, além de melhorar a ambiência para os animais (Assad et al., 2021).

Imagem 1: Integração pecuária-floresta (IPF)

Fonte: Agroadvance, 2023
Imagem 1: Integração pecuária-floresta (IPF)
Fonte: Agroadvance, 2023

O segundo caminho, amplamente conhecido e já adotado por muitos produtores, baseia-se no uso de práticas conservacionistas do solo, como o sistema plantio direto. Além disso, outras estratégias, como o uso de cultivares geneticamente melhoradas para resistir a temperaturas elevadas e déficit hídrico, a aplicação de insumos biológicos e o manejo integrado de pragas, também podem desempenhar um papel crucial na mitigação dos efeitos das mudanças climáticas (Assad et al., 2021). Todas essas práticas auxiliam no enfrentamento dos desafios das mudanças climáticas, como os veranicos prolongados, altas temperaturas, maior incidência de pragas, doenças e daninhas.

Conclusão

A crise climática é uma realidade que traz muitos desafios à agricultura, mas isso não significa que o setor esteja condenado. Há anos, estudos realizados em universidades e instituições de pesquisa têm fornecido ferramentas para garantir a produtividade das lavouras – e, em muitos casos, até aumentá-la. A adoção dessas tecnologias já está presente na prática de muitos agricultores.

No Brasil, diversas práticas agrícolas voltadas à mitigação dos efeitos das mudanças climáticas já fazem parte do cotidiano dos produtores, influenciando como as empresas estruturam suas pesquisas e desenvolvem produtos e serviços. No entanto, ainda há espaço para aprimoramento, e o conhecimento é a chave para um futuro sustentável para a agricultura.

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Potássio: o papel do nutriente na produtividade do milho safrinha https://genica.com.br/potassio-milho-safrinha/ https://genica.com.br/potassio-milho-safrinha/#respond Fri, 16 May 2025 18:37:56 +0000 https://agro.genica.com.br/?p=3773 A cultura do milho safrinha apresenta uma grande relevância no cenário agrícola brasileiro. Impulsionado pelo crescimento da segunda safra, esse cultivo representa uma importante janela de produção para os agricultores, especialmente nas regiões Centro-Oeste e Sudeste do país. No entanto, para alcançar altas produtividades nesse sistema, é essencial que os nutrientes essenciais estejam disponíveis em […]

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A cultura do milho safrinha apresenta uma grande relevância no cenário agrícola brasileiro. Impulsionado pelo crescimento da segunda safra, esse cultivo representa uma importante janela de produção para os agricultores, especialmente nas regiões Centro-Oeste e Sudeste do país. No entanto, para alcançar altas produtividades nesse sistema, é essencial que os nutrientes essenciais estejam disponíveis em quantidades adequadas ao longo do ciclo da planta. Entre esses nutrientes, o potássio ocupa uma posição estratégica. Seu papel é fundamental para diversos processos fisiológicos e bioquímicos, impactando diretamente a sanidade da lavoura, a tolerância ao estresse hídrico e, principalmente, a produtividade final.

Mesmo sendo um dos nutrientes mais requeridos pela cultura do milho, o potássio ainda é negligenciado em muitos planos de adubação. Isso se agrava nas áreas de milho safrinha, em que o manejo muitas vezes é feito com base na adubação residual da cultura de verão, como a soja. Essa prática, embora comum, pode comprometer o desenvolvimento das plantas, visto que o milho apresenta uma alta demanda por potássio, especialmente durante o enchimento de grãos. Portanto, compreender a importância desse nutriente, seus mecanismos de atuação e como manejá-lo de forma eficiente é crucial para garantir a sustentabilidade e rentabilidade da produção de milho safrinha.

A função do potássio na fisiologia do milho

O potássio é um dos três macronutrientes essenciais, juntamente com o nitrogênio e o fósforo. Esse nutriente atua principalmente como um ativador enzimático, participando de mais de 60 processos metabólicos, incluindo a fotossíntese, a síntese de proteínas e o transporte de açúcares no floema. No milho, essas funções estão diretamente relacionadas à formação de colmos mais robustos, maior área foliar e melhor qualidade de grãos.

Outro ponto crucial é a regulação osmótica. O potássio contribui para o controle da abertura e fechamento dos estômatos, estruturas que permitem a troca gasosa e a transpiração. Em condições de estresse hídrico, algo comum nas áreas de milho safrinha, o potássio garante que as plantas consigam manter o equilíbrio hídrico, melhorando a tolerância à seca e reduzindo perdas por murcha. Além disso, é responsável pela movimentação de fotoassimilados das folhas para os grãos, o que impacta diretamente o enchimento dos grãos e o peso final da espiga.

A deficiência de potássio em lavouras de milho manifesta-se visualmente por meio de clorose marginal nas folhas mais velhas, acamamento das plantas e baixa resistência a pragas e doenças. Esses sinais, quando não diagnosticados a tempo, comprometem seriamente a produtividade. Estudos demonstram que solos deficientes em potássio ou manejos inadequados podem causar reduções de até 30% no rendimento do milho safrinha, tornando evidente a necessidade de monitoramento e ferraplicação estratégica do nutriente.

Imagem 1: Sintoma de deficiência de potássio em milho.
Fonte: Agroadvance
Imagem 1: Sintoma de deficiência de potássio em milho.
Fonte: Agroadvance

A dinâmica do potássio no solo e seus desafios no milho safrinha

Entender a dinâmica do potássio no solo é essencial para planejar a adubação potássica de forma eficiente. O potássio encontra-se no solo em três formas principais: a forma estrutural (não disponível para a planta), a forma trocável (adsorvida nos coloides do solo) e a forma em solução (prontamente disponível). Apenas uma pequena fração está disponível imediatamente para absorção pelas raízes, o que demanda uma reposição constante, especialmente em solos arenosos ou com baixa CTC (capacidade de troca de cátions).

Latria - Beauveria bassiana

A peça que faltava no manejo integrado

Gênica

Nas áreas de milho safrinha, o desafio aumenta devido ao intervalo reduzido entre a colheita da cultura anterior (geralmente soja) e a semeadura do milho. Em muitos casos, a adubação potássica é feita de forma antecipada ou mesmo negligenciada, confiando-se no residual da cultura anterior. Contudo, o potássio é altamente móvel no solo, principalmente em condições de chuva intensa, podendo ser lixiviado para camadas mais profundas, fora do alcance das raízes do milho, especialmente no início do ciclo.

Além disso, o milho apresenta uma demanda concentrada por potássio no período entre o florescimento e o enchimento de grãos. Se o nutriente não estiver disponível nesse momento, a planta pode translocar potássio das folhas mais velhas para os órgãos reprodutivos, prejudicando a fotossíntese e, consequentemente, a produção de energia necessária para o desenvolvimento da espiga. Por isso, é fundamental garantir o suprimento contínuo de potássio ao longo do ciclo, considerando práticas como a aplicação parcelada ou o uso de fontes de liberação lenta.

Outro desafio importante é o antagonismo com outros nutrientes. A presença excessiva de cálcio ou magnésio no solo pode reduzir a disponibilidade de potássio, competindo por sítios de absorção nas raízes. Em solos corrigidos com calcário, por exemplo, esse desequilíbrio é comum. Portanto, uma análise química detalhada do solo antes da semeadura é imprescindível para um manejo nutricional equilibrado e eficiente.

Imagem 2: Dinâmica do potássio no solo.
Fonte: Agromove

Estratégias de manejo do potássio para altas produtividade

Para garantir uma adubação potássica eficiente no milho safrinha, é essencial adotar um manejo baseado em diagnóstico, tecnologia e estratégias adaptadas à realidade de cada área. A análise de solo continua sendo a principal ferramenta para determinar a necessidade do nutriente, mas deve ser complementada com informações sobre o histórico da área, cultivos anteriores, produtividade esperada e características físicas do solo, como textura e profundidade efetiva.

A aplicação do potássio pode ser feita de diversas formas: a lanço, em linha, parcelada ou via fertirrigação (em sistemas irrigados). No milho safrinha, a aplicação a lanço antes da semeadura costuma ser a mais prática, especialmente quando há limitação de tempo entre a colheita da soja e o plantio. No entanto, quando possível, a aplicação em linha no momento da semeadura garante maior eficiência na absorção, reduzindo perdas por lixiviação.

Em solos com alta vulnerabilidade à perda de nutrientes, como os arenosos, a aplicação parcelada pode ser uma boa alternativa. Nessa estratégia, parte do potássio é aplicado na semeadura e o restante em cobertura, no estádio V4 a V6 do milho, coincidindo com o início da fase de alta exigência da planta. Essa prática melhora o aproveitamento do nutriente, reduz os riscos de perdas e garante maior segurança nutricional à cultura.

Outra abordagem interessante envolve o uso de fontes de potássio com liberação gradual, como o sulfato de potássio de liberação controlada ou misturas com polímeros protetores. Essas fontes garantem a liberação progressiva do nutriente, acompanhando a demanda da planta ao longo do ciclo. Além disso, a combinação com tecnologias biológicas, como microrganismos solubilizadores de potássio ou bioestimulantes que favorecem o crescimento radicular, tem mostrado bons resultados na agricultura regenerativa e sustentável.

Cabe destacar também que o manejo integrado do potássio deve considerar o equilíbrio com outros nutrientes. Um programa de adubação completo deve avaliar a relação K/Mg/Ca e buscar um equilíbrio que favoreça a absorção simultânea dos três cátions, sem causar desequilíbrios que possam comprometer o desempenho da lavoura. Para isso, o apoio de um engenheiro agrônomo ou consultor técnico especializado é fundamental.

Imagem 3: Absorção e alocação de potássio na planta de milho ao longo do ciclo da cultura.
Fonte: Biomatrix

Potássio e produtividade: evidências e resultados práticos

Diversos estudos agronômicos realizados ao longo da última década reforçam a importância do potássio na produtividade do milho safrinha. O nutriente, que atua diretamente na regulação estomática, no transporte de fotoassimilados e no enchimento de grãos, tem efeito comprovado tanto no aumento da produtividade quanto na melhoria da qualidade fisiológica da planta, especialmente em ambientes de segunda safra, onde os desafios climáticos são maiores.

Pesquisas conduzidas pela Embrapa Milho e Sorgo demonstraram que a aplicação adequada de potássio em sistemas de cultivo sob safrinha pode elevar a produtividade do milho em até 20%, especialmente quando o nutriente é fornecido em equilíbrio com o nitrogênio e o fósforo (Coelho et al., 2017). Esse ganho está associado à maior eficiência no uso da água e ao estímulo à atividade fotossintética da planta, garantindo melhor formação e enchimento de espigas.

Outro estudo relevante, realizado por Silva et al., 2020, mostrou que a deficiência de potássio em solos de cerrado reduziu significativamente o número de grãos por espiga e o peso de mil grãos em cultivares de milho. A pesquisa concluiu que a disponibilidade adequada do nutriente, em especial nas fases V6 a V12 da cultura, é essencial para assegurar o potencial produtivo do híbrido, mesmo sob estresse hídrico moderado, condição comum no final do ciclo do milho safrinha.

Além disso, em experimentos de campo realizados no Paraná, pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá (UEM) verificaram que o parcelamento da adubação potássica em cobertura favoreceu o aproveitamento do nutriente em anos de distribuição irregular de chuvas (Martins et al., 2019). As áreas tratadas com potássio em duas aplicações (30 e 60 dias após a emergência) apresentaram maior massa seca da parte aérea, maior índice de colheita e produtividade até 1.500 kg/ha superior em relação às áreas com aplicação única na semeadura.

Também é importante destacar os dados obtidos pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC), que demonstraram que a presença equilibrada de potássio no solo contribui para uma maior resistência do milho à pressão de doenças como a ferrugem e a cercosporiose, além de melhorar a sanidade radicular (Rossetto et al., 2018). Esses efeitos indiretos sobre a sanidade da planta acabam refletindo positivamente no desempenho agronômico e na estabilidade produtiva ao longo dos anos.

A somatória dessas evidências científicas reforça que o manejo correto do potássio não é apenas uma questão de fornecimento de nutrientes, mas um componente estratégico na construção de produtividade e resiliência da lavoura. Considerar o histórico do solo, as exigências da cultivar e as condições climáticas da safrinha são passos fundamentais para otimizar a eficiência do uso desse nutriente e garantir o retorno econômico ao produtor.

Conclusão

O potássio é um nutriente essencial e estratégico para o sucesso da cultura do milho safrinha. Seu papel vai muito além da simples nutrição da planta, impactando processos fisiológicos fundamentais, como a fotossíntese, o transporte de açúcares e a regulação hídrica. A sua correta disponibilidade ao longo do ciclo da cultura é determinante para o alcance de altas produtividades e para a sustentabilidade da lavoura.

Para obter o máximo retorno sobre o investimento, o manejo do potássio deve ser técnico e baseado em diagnóstico. A análise de solo, a escolha da fonte adequada, o momento da aplicação e o equilíbrio com outros nutrientes são fatores-chave para o sucesso. Em um cenário de produção cada vez mais competitivo, adotar estratégias eficientes de adubação potássica pode ser o diferencial entre uma lavoura mediana e uma lavoura de alta performance.

Dessa forma, produtores e técnicos agrícolas devem olhar para o potássio não apenas como um insumo, mas como um aliado estratégico na construção de sistemas produtivos resilientes, rentáveis e alinhados com os princípios da agricultura moderna e sustentável.

Referências bibliográficas

Malavolta, E. (2006). Manual de Nutrição Mineral de Plantas. São Paulo: Agronômica Ceres.

Cantarella, H., et al. (2007). Nutrição Mineral e Adubação do Milho. In: Embrapa Milho e Sorgo. O milho no Brasil.

Raij, B. van et al. (2001). Interpretação de análises de solo para fins de fertilidade. Campinas: Instituto Agronômico.

EMBRAPA. (2021). Cultivo do milho safrinha: manejo e recomendações técnicas. https://www.embrapa.br

Souza, D. M. G., Lobato, E. (2004). Calagem e adubação para culturas anuais e semiperenes. In: Cerrado: correção do solo e adubação.

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O avanço da agricultura sobre solos tropicais ocorreu, em grande parte, devido ao reconhecimento das barreiras químicas que limitam o crescimento das raízes em profundidade. Plantas incapazes de expandir suas raízes tanto em profundidade quanto em volume enfrentam dificuldades na absorção de água e nutrientes, tornando-se mais sensíveis a veranicos e tendo sua produtividade reduzida (Quaggio & van Raij, 2022).

Ainda na década de 1960, identificou-se que os principais fatores limitantes para o crescimento radicular são a toxicidade do alumínio (Al) e a deficiência de cálcio (Ca), que podem ocorrer de forma isolada ou simultânea, como geralmente ocorre em solos tropicais predominantes no Brasil (Quaggio, van Raij, 2022).

A toxicidade do alumínio prejudica a multiplicação celular nas raízes, enquanto a deficiência de cálcio, devido ao seu papel essencial na formação das estruturas celulares e à sua absorção restrita às extremidades jovens das raízes, pode impedir o crescimento contínuo do sistema radicular caso o nutriente não esteja facilmente acessível ao longo do percurso das raízes (Quaggio & van Raij, 2022).

Dessa forma, considerando que a maioria dos solos brasileiros é altamente intemperizada, é comum encontrar altos teores de alumínio e baixos níveis de cálcio, o que representa um desafio para a atividade agrícola e exige intervenções para corrigir essas condições, proporcionando um ambiente adequado ao crescimento das plantas.

As práticas de calagem, gessagem e fosfatagem, que envolvem o uso de calcário, gesso agrícola e fontes de fósforo, respectivamente, demonstraram ser as estratégias mais eficazes para essa correção. Por essa razão, são amplamente adotadas na agricultura tropical brasileira (Quaggio & van Raij, 2022).

Amostragem e análise química do solo

Fonte: Rehagro

O preparo do solo para a atividade agrícola pode ser comparado à construção de uma casa, onde a amostragem do solo para análise química representa o alicerce. Sem uma base sólida, toda a estrutura fica comprometida, e o investimento pode ser perdido.

Por mais precisa que seja a análise química do solo, ela não é capaz de corrigir erros cometidos durante a coleta do material ou de sua representatividade. (Boletim 100, 2022).

A quantidade de terra enviada ao laboratório para análise química é ínfima próximo a realidade do que está sendo amostrado (Chitolina et al., 2009):

  • Peso médio da camada arável de 1 ha de solo: 2.000.000 kg
  • Peso médio da amostra enviada ao laboratório: 0,5 kg
  • Peso médio efetivamente utilizado pelo laboratório: 0,01 kg

Por essa razão, é fundamental seguir corretamente todas as recomendações de coleta, garantindo que as amostras sejam representativas. O objetivo dessas diretrizes é minimizar as variações do solo, que podem ter diferentes origens e demandam estratégias específicas de correção e adubação. Para a divisão em glebas homogêneas, devem-se considerar fatores como tipo de solo, topografia, vegetação e histórico da cultura de manejo da área (Chitolina et al., 2009).

Abaixo, como exemplo, está ilustrado um plano de amostragem para quatro áreas, no qual há a necessidade de coletar 10 amostras compostas. As amostras simples (subamostras) são coletadas percorrendo o terreno em zigue-zague.

Figura 1: Plano de amostragem de uma gleba com diferentes declives e usos do solo.
Fonte: Chitolina et al. (2009).

Cada amostra composta enviada ao laboratório é formada por 15 a 20 subamostras coletadas nas glebas, as quais são homogeneizadas, com a quebra de torrões e a remoção de gravetos e outros resíduos presentes. Em seguida, o material é acondicionado em sacos contendo entre 250 e 500 g de solo.

Acima de 20 subamostras, a redução da variação em relação à média torna-se pouco significativa, enquanto o esforço necessário para a amostragem aumenta consideravelmente (Boletim 100, 2022).

Figura 2: Variação aceitável de erro na estimativa da média do teor de P resina em função do número de subamostras para a definição de uma amostra composta de solo em estudo realizado pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC).
Fonte: Boletim 100 (2022)

Existem diferentes recomendações para a coleta de solo, que variam conforme o tipo de cultura — anual, perene ou semiperene. Boletins técnicos de calagem e adubação, como o Boletim 100, Boletim Cerrado e Boletim Paraná, compilam as orientações específicas para cada cultura, sendo ferramentas indispensáveis para técnicos e produtores agrícolas.

Para a coleta, podem ser utilizados sonda ou trado. Os modelos mais comuns são o trado de rosca, o trado meia-lua (calador) e o trado holandês. A pá de corte também é uma alternativa viável, embora exija mais tempo para a amostragem (Chitolina et al., 2009). O calador é mais indicado para amostragens superficiais, enquanto o trado holandês proporciona amostras menos influenciadas pela textura e pelo teor de umidade do solo (Chitolina et al., 2009).

No momento da coleta, é essencial limpar o ponto selecionado, removendo vegetação, folhas, ramos e pedras. Além disso, após a retirada da amostra com o trado, deve-se limpar suas laterais com um canivete para eliminar resíduos de camadas superiores, procedimento conhecido como toilette.

Figura 3: Procedimentos de amostragem de solo utilizando diferentes equipamentos.
Fonte: Chitolina et al. (2009).

A análise química do solo permite identificar deficiências nutricionais e obstáculos ao desenvolvimento vegetal. Os parâmetros associados à acidez são o pH (medido em água ou, mais comumente, em CaCl2) e saturação por bases (V%), combinados aos parâmetros de concentração de alumínio trocável (Al3+), os cátions trocáveis (Ca2+, Mg2+ e K+) e ainda a acidez potencial (H+ + Al3+). Esses dados são essenciais para os cálculos de correção do solo e adubação (Boletim 100, 2022).

A partir desses parâmetros, é possível obter outros atributos e propriedades do solo como:

A interpretação dos resultados obtidos na análise de solo, retornada pelo laboratório, é uma etapa crucial que antecede as práticas de correção do solo. Para a acidez, as classes definidas são:

Classes de acidezpH em CaCl2Saturação por basesV (%)
Muito alta< 4,4Muito baixa< 25
Alta4,4 – 5,0Baixa25 – 50
Média5,1 – 5,5Média50 – 70
Baixa5,6 – 6,0Alta70 – 90
Muito baixa> 6,0Muito alta> 90
Tabela 1: Limites de interpretação das determinações relacionadas com a acidez da camada arável do solo.
Fonte: Boletim 100 (2022).

A correção da acidez

Os corretivos agrícolas, como mencionado anteriormente, são ferramentas essenciais para o agricultor. Seu papel na correção do pH dos solos foi fundamental para o avanço da agricultura tropical brasileira no Cerrado, colocando o país no topo do ranking mundial de produtores.

A necessidade de aplicação de calcário decorre do perfil ácido predominante em grande parte dos solos brasileiros, acidez esta resultante dos processos de formação dos solos tropicais e subtropicais, que são altamente intemperizados e oxídicos, com elevados percentuais de óxidos de ferro (Fe) e alumínio (Al).

A correção da acidez do solo é crucial para a disponibilidade de nutrientes , a qual varia conforme o pH, definido pela concentração de íons de hidrogênio na solução do solo. Em solos excessivamente ácidos (pH baixo), a disponibilidade de nutrientes essenciais, como fósforo, cálcio, magnésio, potássio e molibdênio, diminui. Por outro lado, a disponibilidade de elementos como zinco, cobre, ferro, manganês e alumínio tendem a aumentar, podendo atingir níveis tóxicos para as plantas, dependendo das práticas de manejo adotadas. Assim, a faixa de pH considerada ideal para a maioria das culturas está entre 6 e 6,5 (Figura 3).

Figura 4: Influência do pH na dinâmica dos nutrientes.
Fonte: Adaptado de Malavolta (1989) por Veloso et al. (2020)

Essa acidez está relacionada ao equilíbrio entre a fase sólida e a solução do solo. A acidez presente na solução é denominada acidez ativa, enquanto a acidez da fase sólida, que pode ser centenas ou milhares de vezes maior, é chamada acidez potencial (Motta e Melo, 2019).

A acidez ativa é expressa em pH e determina o potencial de H⁺ na solução do solo em equilíbrio com os coloides. A medição dessa atividade de H⁺ pode ser realizada por meio de métodos de obtenção da solução do solo, tanto em campo quanto em laboratório.

A acidez potencial está relacionada ao hidrogênio e ao alumínio, permanecendo na fase sólida, sendo frequentemente retratada como o poder tampão do solo. Ela é dividida em acidez trocável e acidez não trocável.  A acidez trocável está relacionada ao alumínio que se encontra ligado eletrostaticamente à superfície dos coloides, sendo passível de remoção por meio de uma solução de cloreto de potássio. Por outro lado, a acidez não trocável refere-se ao hidrogênio vinculado aos coloides, o qual não pode ser trocado diretamente e só será dissociado quando o pH do solo aumentar.

Figura 5: Acidez do solo ilustrada.
Fonte: Lopes e Guilherme (1990) e Quaggio (2000).

MINERALOGIA DO CALCÁRIO

O calcário é uma rocha sedimentar composta principalmente por carbonato de cálcio e é amplamente utilizado em diversas indústrias, com diferentes finalidades. Na agricultura, sua principal aplicação é na correção da acidez do solo, proporcionando benefícios significativos para o desenvolvimento das culturas (CALCÁRIO…, 2022).

No mercado brasileiro, há uma ampla variedade de tipos de calcário. Embora todos atuem como corretivos da acidez, suas composições e finalidades podem variar. A escolha do calcário ideal para cada situação deve considerar as características específicas de cada tipo, como descrito a seguir (CALCÁRIO…, 2022):

Calcário Calcítico: Rico em óxido de cálcio (40% a 45% de CaO), este tipo de calcário contém até 5% de óxido de magnésio (MgO). É recomendado para solos que necessitam de mais cálcio, mas apresentam pouca demanda por magnésio.

Calcário Magnesiano: Apresenta uma composição equilibrada, com teores de óxido de magnésio variando de 5,1% a 12%. Este tipo é indicado para solos que precisam de cálcio e magnésio em proporções balanceadas.

Calcário Dolomítico: Com mais de 12% de óxido de magnésio, é a opção ideal para solos com teores insuficientes desse elemento.

Calcário Filler: Embora não constitua um tipo distinto de calcário, o calcário filler é uma variação granulométrica mais fina dos tipos anteriores. Devido à sua granulometria reduzida, reage mais rapidamente no solo, sendo especialmente útil em práticas como o plantio direto.

Otto e Nascimento (s.d.) recomendam sempre a preferência por calcários com teores de MgO superiores a 12%, uma vez que a concentração de magnésio no solo, geralmente inferior a 12 mmolc dm³ na camada de 0 a 20 cm, torna esse nutriente o mais limitante em áreas agrícolas. Enquanto o cálcio é fornecido por diversos produtos usados na atividade agrícola, seus teores raramente representam um problema. Já o magnésio, por ser essencial e sua única forma prática e econômica de fornecimento ser através do calcário, exige especial atenção. Por isso, é sempre recomendada a escolha de calcários com altos teores de magnésio.

Além disso, ao escolher o calcário, diversas informações que caracterizam o produto são fornecidas. Para uma compra consciente, é essencial compreender o significado dessas características. Dentre elas, as mais relevantes para a neutralização da acidez do solo são o poder de neutralização (PN) e a reatividade (RE) do material, que levam em conta a granulometria e os teores de cálcio e magnésio (Brasil et al., 2020).

A eficiência neutralizante de um corretivo é determinada pelo conteúdo de óxido de cálcio (CaO), óxido de magnésio (MgO) e pela granulometria, que é avaliada com o uso das peneiras ABNT nº 10 (2 mm), nº 20 (0,84 mm) e nº 50 (0,30 mm). Esses parâmetros são combinados em um único valor que indica a qualidade do corretivo, conhecido como Poder Relativo de Neutralização Total (PRNT), e é representado pela seguinte expressão:

O PN é determinado em laboratório por meio de um método analítico conforme a legislação vigente. A RE indica o percentual do corretivo que reage no solo em um período de 3 meses e é avaliada pela granulometria das partículas. A reatividade é zero para as partículas retidas na peneira ABNT nº 10, 20% para aquelas que passam pela peneira nº 10 e são retidas na peneira nº 20, 60% para as que passam pela peneira nº 20 e são retidas na peneira nº 50, e 100% para as partículas que passam pela peneira nº 50 (Brasil et al., 2020). Dessa forma, a equação expandida seria:

Onde:

Eq. CaCO3 = Poder de Neutralização (PN) = % CaO x 1,79 + % MgO x 2,48.

A = % de calcário que fica retido na peneira 10.

B = % de calcário que fica retido entre as peneiras 10 e 20.

C = % de calcário que fica retido entre as peneiras 20 e 50.

D = % de calcário que passa pela peneira 50.

De acordo com a legislação brasileira atual sobre corretivos, para que o calcário possa ser comercializado, o valor mínimo exigido para o PN é 67, enquanto o PRNT deve ser pelo menos 45%. As faixas de PRNT podem ser classificadas da seguinte forma:

  • A: PRNT entre 45% e 60%;
  • B: PRNT entre 60,1% e 75%;
  • C: PRNT entre 75,1% e 90%.

Outros corretivos

Além do calcário, outros materiais são possíveis de se utilizar para corrigir a acidez do solo: são aqueles que possuem óxidos, hidróxidos, carbonatos e silicatos de cálcio e/ou magnésio como componentes neutralizantes ou princípios ativos (Brasil et al., 2020).

Malavolta (1989) elencou alguns materiais comercializados como corretivos de acidez na seguinte tabela:

Materiais corretivos de acidezPoder de neutralização (% em CaCo)% CaO + % MgO
Calcários6738
Cal virgem agrícola12568
Cal hidratada agrícola9450
Escórias6030
Calcário calcinado agrícola8043
Outros6738
Tabela 2 – Características químicas dos corretivos de acidez.
Fonte: Adaptado de Malavolta (1989).

Reações no solo

Quando aplicado ao solo, seja incorporado ou a lanço, o calcário agrícola passa por uma série de reações químicas que resultam na neutralização da acidez do meio. Essas reações ocorrem da seguinte forma:

Ca, Mg (CO3)2 +H2O (solo)  Ca++ + Mg++ + 2CO32-

CO32+ H2O (solo)  HCO3 + OH

HCO3 + H2O (solo) H2CO3 + OH

As hidroxilas (OH⁻) liberadas reagem com os íons H⁺ presentes na solução do solo, formando água. Além disso, reagem com o alumínio (Al³⁺), dando origem ao hidróxido de alumínio (Al(OH)₃), que se precipita, reduzindo a toxicidade desse elemento para as plantas.

OH+ H+ (solução do solo)  H2O

3OH + Al3+  Al(OH)3 (precipitado)

O tempo necessário para que o calcário reaja no solo e converta o carbonato em hidroxila pode levar até três meses, devido à sua baixíssima solubilidade (Pavinato, 2024).

Embora as reações químicas variem entre os diferentes tipos de corretivos de acidez, todos atuam de forma semelhante, promovendo a liberação de hidroxilas (OH⁻), que neutralizam os íons H⁺ da solução do solo (Pavinato, 2024).

Atualmente, também se discute amplamente o efeito residual dos calcários. O efeito residual (ER) refere-se à fração do Poder de Neutralização (PN) que não reage imediatamente devido à granulometria mais grosseira do material, podendo atuar posteriormente no solo.

Cálculo da necessidade de calagem

Para o cálculo da necessidade de calcário a ser aplicado existem alguns métodos utilizados no Brasil e muitos outros no mundo inteiro. Contudo, algumas fórmulas se consolidaram e são mais utilizadas que outras.

O Boletim 100 de adubação e calagem para o estado de São Paulo define como oficial o método da saturação por bases, deduzido por Quaggio (1983) e Quaggio et al. (1985):

Na qual:

NC = Necessidade de calagem, em t ha-1 por 0,20 m de profundidade, ou o volume de 2.000 m3 de solo da camada arável;

CTC = Capacidade de troca de cátions, em mmolc dm-3;

V2 = Saturação por bases desejada para a cultura, em %;

V1 = Saturação por bases atual do solo, em %;

PRNT = Poder Relativo de Neutralização Total, que mede a capacidade neutralizante do corretivo, em %.

A saturação por bases é um índice quantitativo e preciso que indica a quantidade necessária de calcário. O pH do solo depende da saturação por bases e pode ser determinado pela equação:

pHCaCl2 = 3,7 + 0,027V%

Os valores desejáveis de saturação por bases (V₂) variam de acordo com a tolerância da cultura à acidez ou sua resposta à calagem (Boletim 100, 2022).

Outro método frequentemente utilizado para recomendação da calagem é o baseado no alumínio trocável e na elevação dos teores de cálcio (Ca²⁺) e magnésio (Mg²⁺). Esse método considera a necessidade de neutralização do alumínio trocável no solo, utilizando-o como critério para determinar a dose de calcário. A quantidade recomendada é calculada multiplicando-se o teor de alumínio por um fator de 1,5 ou 2,0, dependendo da sensibilidade da cultura (Kamprath, 1970 apud Brasil et al., 2020). Além disso, busca-se elevar os teores de cálcio e magnésio para um mínimo de 2 cmolc dm⁻³.

*teores em cmolc dm-3

Técnicas de aplicação

Os corretivos da acidez do solo atuam principalmente a curto prazo e apenas na área tratada, uma vez que o calcário reage de forma relativamente lenta. Por isso, para maximizar os benefícios, especialmente na primeira cultura, recomenda-se aplicá-lo com antecedência, garantindo uma distribuição uniforme e incorporando-o o mais profundamente possível. com antecedência suficiente para permitir sua reação no solo antes do plantio. No entanto, caso isso não seja viável, é preferível aplicar o calcário próximo à semeadura do que não a realizar (Boletim 100, 2022).

A importância da incorporação do calcário reside no fato de que a acidez não está restrita à camada superficial do solo (0–20 cm), mas ocorre ao longo do perfil, uma vez que os diferentes horizontes do solo apresentam variações significativas em seus atributos químicos, físicos, mineralógicos e biológicos.

A eficiência da calagem pode ser reduzida por fatores como a aplicação desuniforme e a incorporação superficial do corretivo. A aplicação desuniforme resulta em áreas com solo ácido, prejudicando o desenvolvimento das plantas. Já a incorporação superficial pode levar à “supercalagem” na camada superior do solo, ocasionando deficiências de micronutrientes e restringindo o crescimento radicular em profundidade devido à manutenção da acidez subsuperficial (Boletim 100, 2022).
Para garantir uma incorporação mais homogênea, recomenda-se dividir a dose recomendada de calcário em duas aplicações. Primeiramente, aplica-se metade da dose, seguida da incorporação com grade semipesada e uma aração profunda ou grade pesada. Em seguida, a segunda metade da dose é aplicada e incorporada com grade semipesada (Boletim 100, 2022).

A correção adequada da acidez do solo, que envolve o revolvimento e a incorporação mecânica do calcário, deve ser realizada antes da adoção do sistema de plantio direto (SPD). Após a implementação do SPD, as correções da acidez são feitas periodicamente, aplicando os corretivos apenas na superfície do solo (Boletim 100, 2022).

Gessagem

A calagem é uma prática eficaz para melhorar os aspectos químicos da superfície do solo. No entanto, isoladamente, ela não é suficiente para corrigir o subsolo, onde altas concentrações de alumínio e baixos teores de cálcio podem limitar o crescimento radicular. Esse fator resulta em sistemas radiculares pouco desenvolvidos, incapazes de crescer em profundidade e explorar a umidade e os nutrientes disponíveis nas camadas inferiores do solo, tornando as plantas mais suscetíveis ao estresse hídrico.

O gesso agrícola é um sal solúvel composto, em média, por 19% de cálcio (Ca) e 15% de enxofre (S) na forma de sulfato de cálcio di-hidratado (CaSO₄·2H₂O). Ele é utilizado tanto como fonte de nutrientes (Ca e S) quanto como condicionador da subsuperfície do solo, minimizando os efeitos da acidez em camadas mais profundas e contribuindo para a correção de solos sódicos. De acordo com a legislação brasileira, o gesso é classificado como corretivo de sodicidade e condicionador de solo.

A aplicação do gesso agrícola, prática conhecida como gessagem, reduz a saturação por alumínio e aumenta os teores de cálcio e enxofre no subsolo, sendo uma técnica fundamental para otimizar o uso da maioria dos solos brasileiros (Vitti et al., 2008). Além disso, o gesso promove a movimentação de cátions, como cálcio (Ca²⁺), potássio (K⁺) e magnésio (Mg²⁺), ao longo do perfil do solo, aumentando a disponibilidade desses nutrientes em profundidade e reduzindo a saturação por alumínio e seus efeitos tóxicos (Veloso et al., 2020).

O sulfato de cálcio (CaSO4), principal constituinte do gesso agrícola, pode ocorrer naturalmente sob três formas:

  • anidrita;
  • gipsita (gesso natural);
  • gesso agrícola (fosfogesso).

Atualmente, a fonte mais utilizada na agricultura é o fosfogesso, um subproduto da indústria de fertilizantes fosfatados (STP, MAP e DAP), obtido a partir do ataque sulfúrico à rocha fosfática.

O gesso apresenta uma solubilidade de 0,204 g 100 mL⁻¹ em água a 25°C, significativamente superior à do calcário (0,0014 g 100 mL⁻¹). Isso permite que o gesso se mova ao longo do perfil do solo, ao contrário do calcário, que permanece mais restrito à camada onde foi incorporado.

É importante ressaltar que o gesso não deve ser utilizado como corretivo de acidez do solo. Além disso, sua aplicação em mistura com corretivos de acidez pode reduzir o poder relativo de neutralização total (PRNT) da calagem, uma vez que o gesso não possui efeito neutralizante sobre a acidez do solo (Veloso et al., 2020).

Reações do gesso no solo

Pavan et al. (1992) assumem que o gesso aplicado ao solo apresenta o seguinte mecanismo de dissociação:

Nessa reação, aproximadamente 50% do gesso aplicado se dissocia em íons de cálcio (Ca²⁺) e sulfato (SO₄²⁻), que participam, respectivamente, de trocas catiônicas e aniônicas na superfície dos coloides do solo. Já a fração neutra (CaSO₄⁰) é móvel no perfil do solo, movendo-se como um par iônico (CaSO₄⁰, MgSO₄⁰, KSO₄⁻) em direção ao subsolo, promovendo o aumento dos teores desses elementos em profundidade (Veloso et al., 2020).

Quando o gesso é aplicado após a calagem, observa-se que, após a dissolução, o sulfato se desloca para camadas mais profundas, acompanhado principalmente pelo cálcio (Vitti et al., 2008).

Devido a essa dinâmica, o gesso agrícola desempenha diversas funções no solo, entre as quais se destacam:

  • Efeito fertilizante: atua como fonte de cálcio e, especialmente, enxofre (Vitti et al., 2008).
  • Efeito na redução de salinidade: grande parte do fornecimento de potássio (K⁺) ocorre via cloreto de potássio (KCl), a fonte mais econômica. No entanto, o uso dessa fonte libera cloro (Cl⁻) no solo, contribuindo para um alto índice salino, superior ao do nitrato de sódio (NaCl). O gesso agrícola pode auxiliar na mitigação desse problema, deslocando o cloreto (Cl⁻) proveniente do KCl (Vitti et al., 2008).
  • Condicionador de subsuperfície: o cálcio fornecido pelo gesso pode deslocar os íons de alumínio (Al³+) da superfície dos coloides para a solução do solo. Uma vez dissociado, o sulfato se liga ao alumínio em profundidade, formando AlSO₄⁺, reduzindo sua atividade na solução do solo e minimizando sua toxidez para as plantas (Vitti et al., 2008).

    Dessa forma, o gesso contribui para a melhoria do ambiente radicular ao:
    (i) aumentar a disponibilidade de cálcio em profundidade, (ii) reduzir a saturação por alumínio (m%), por meio do aumento da participação do cálcio na CTC efetiva, e (iii) diminuir a absorção de alumínio pelas raízes, devido à formação do complexo AlSO₄⁺ (Vitti et al., 2008).

    Figura 6: Troca iônica entre o cálcio do gesso e o alumínio adsorvido à fração argila.
    Fonte: Vitti e Priori (2009)

    Portanto, o gesso não tem a função de corrigir a acidez do solo nem de reduzir o alumínio trocável (Al³⁺), mas sim de modificar sua forma iônica, convertendo Al³⁺ em AlSO₄⁺ (menos tóxico), tornando o ambiente radicular mais favorável ao desenvolvimento das plantas.

    Diagnóstico para a recomendação

    Segundo Vitti (2000), a recomendação de gesso para o condicionamento da subsuperfície do solo exige a realização da amostragem em profundidades de 20-40 cm e 40-60 cm para culturas anuais, e até 60-80 cm para culturas perenes. Dependendo do método utilizado, pode ser necessária também a determinação do teor de argila.

    A necessidade de gessagem é indicada quando pelo menos um dos seguintes critérios for atendido:

    • Cálcio (Ca²⁺) < 5,0 mmolc dm⁻³ (0,5 cmolc dm⁻³)
    • Alumínio (Al³⁺) > 5,0 mmolc dm⁻³ (0,5 cmolc dm⁻³)
    • Saturação por alumínio (m%) > 20%
    • Saturação por bases (V%) < 35%

    A recomendação e o cálculo da necessidade de gessagem (NG) são baseados na textura do solo (% de argila) ou na saturação por bases (V%) e na CTC das camadas subsuperficiais, conforme descrito a seguir.

    1. Com base no teor de argila das camadas subsuperficiais
      1. Para culturas anuais
    1. Para culturas perenes

    Sendo:
    NG = necessidade de gesso (kg ha-1)

      Textura do SoloDose de Gesso Agrícola (kg/ha) Culturas Anuais                  Culturas Perenes
    Arenosa (<15% argila)7001050
    Média (16% a 35% argila)12001800
    Argilosa (36% a 60% argila)22003300
    Muito argilosa (>60% argila)32004800
    Tabela 3: Recomendação de gesso agrícola, em função da classificação textural do solo
    Fonte: Adaptado de Sousa; Lobato; Rein (2005)

    1. Com base na saturação por bases (V%) e CTC das camadas subsuperficiais. Segundo a equação de Vitti et al. (2006):

    Sendo:

    NG = necessidade de gesso (t ha-1)

    V2 = saturação por bases esperada (50%)

    V1 = saturação por bases atual na camada 20-40 ou 25-50 cm (%)

    CTC = capacidade de troca catiônica na camada 20-40 ou 25-50 cm (mmolc dm-3)

    Na Tabela 4 são apresentados os dados de recomendação de doses de gesso, considerando que a utilização de 1,0 t ha-1 eleva o teor de bases (Ca) do solo em 5,0 mmolc .dm-3.

    CTC (mmolc.dm-3V (%)              Doses de gesso (t.ha)
      <30<10 10 20 20 352,0 1,5 1,0 
      30 – 60<10 10 20 20 353,0 2,0 1,5 
      60 – 100<10 10 20 20 353,5 3,0 2,0 
    Tabela 4: Quantidade aproximada de gesso a ser aplicada, de acordo com a capacidade de troca catiônica (CTC) e a saturação por bases (V%) do subsolo.
    Fonte: Adaptado de Demattê, (1986)

    Segundo Vitti et al. (2008), a aplicação de gesso deveria ocorrer após a correção da camada superficial do solo, caso contrário, é possível que o sulfato (SO4) carregue bases como potássio e magnésio em profundidade, onde são inacessíveis à grande porção da raiz da planta.

    Fosfatagem

    A deficiência de fósforo limita significativamente a produtividade das culturas, especialmente em solos ácidos ou pouco adubados. Com o tempo, à medida que os cultivos e adubações subsequentes são realizados, os níveis de disponibilidade de fósforo tendem a aumentar a cada safra. No entanto, para alcançar altos teores de fósforo disponível, especialmente em solos argilosos, é necessário utilizar doses elevadas de fósforo na adubação.

    Os solos brasileiros e tropicais, em sua maioria, apresentam um alto potencial de fixação de fósforo, o que pode acarretar grandes prejuízos à atividade agrícola, devido aos elevados custos de fertilizantes e à significativa perda de produtividade caso haja deficiência desse nutriente no solo (Pavinato, 2024).

    A adubação corretiva em área total, focada no macronutriente fósforo (P), é denominada fosfatagem. O objetivo dessa prática é elevar os níveis de fósforo no solo por meio do uso de fertilizantes de baixa solubilidade e aumentar a eficiência da adubação fosfatada, promovendo a saturação dos sítios de adsorção de fósforo até um nível crítico de 15 mg dm-³ (P resina) (Pavinato, 2024).

    Diferente da adubação fosfatada, que visa fornecer fósforo para as plantas, a fosfatagem tem como objetivo fornecer fósforo ao solo, sendo, portanto, uma prática corretiva. O fósforo é distribuído em toda a área e incorporado superficialmente, a uma profundidade de 10 a 20 cm. A fosfatagem deve ser realizada após a calagem, pois, em solos com acidez corrigida, o fósforo é menos fixado.

    Figura 7: Picos e vales da fixação de P em função do pH do solo.
    Fonte: Adaptado de Price (2006).

    A adubação de plantio, se não foi precedida pela fosfatagem, sofre com o menor aproveitamento do fertilizante aplicado, em razão da fixação de fósforo no solo. Além disso pode ocorrer uma concentração excessiva de raízes no sulco de semeadura, o que causa um menor aproveitamento da adubação de cobertura e absorção de água do solo (Pavinato, 2024).

    Os critérios para a recomendação da fosfatagem, em P resina, são:

    • CTC < 60 mmolc dm-3 ou argila > 30%
    • P resina < 15 mg dm-3

    E a quantidade recomendada a ser aplicada é de 5 kg P2O5 para cada 1% de argila, ou, para elevar 1 mg dm-3 de P resina, é necessário aplicar 10 kg ha-1 de P2O5 (Pavinato, 2024).

    Alguns técnicos desaconselham a prática de fosfatagem em solos argilosos devido ao seu elevado poder de fixação, o que exige doses elevadas de P₂O₅. No entanto, segundo Souza et al. (2006), a recomendação de adubação fosfatada corretiva pode ser realizada levando-se em consideração a capacidade tampão de fósforo em solos com até 70% de argila, sendo a seguinte fórmula:

    Dose de P2O5 (kg ha-1) = (Nível crítico de P no solo – teor atual de P no solo) x CT

    Onde CT é a capacidade tampão de fósforo, que representa a dose de P₂O₅ a ser aplicada para elevar 1 mg dm³ de fósforo, de acordo com os extratores de Mehlich 1 e resina. Os níveis críticos e os valores de CT em função do teor de argila estão descritos na Tabela 5. Solos com teores de P acima do nível crítico não necessitam de fosfatagem.

    Teor de ArgilaNível crítico de fósforo para o sistema de sequeiroCapacidade tampão de fósforo (CT)
      %  Mehlich 1ResinaMehlich 1Resina 
    ————–mg/dm³————–—-(kg P2O5/ha) / (mg/dm³ de P)—- 
    10 – 15201556 
    16 – 25171578 
    26 – 3515151010 
    36 – 4512151612 
    46 – 559152615 
    56 – 656154217 
    66 – 704157019 
    Tabela 5: Nível crítico (Mehlich 1 e resina) e capacidade tampão de fósforo em função do teor de argila do solo.
    Fonte: Adaptado de Sousa et al. (2006)

    Os insumos que podem ser utilizados para a fosfatagem devem ter seu teor de P2O5 solúvel em ácido cítrico conhecido, a fim de calcular corretamente a quantidade necessária. As fontes que podem ser empregadas incluem: (i) fosfato natural reativo (FNR), (ii) termofosfato magnesiano, (iii) fósforo orgânico (como a torta de filtro) e (iv) fósforo organomineral. As fontes de baixa solubilidade são as mais recomendadas, pois apresentam menor custo e solubilizam-se gradualmente no solo.

    Gênica: Biotecnologia que gera valor por gerações

    Conclusão

    Com os conhecimentos abrangentes sobre a correção química do solo apresentados neste guia, os produtores agrícolas dispõem de ferramentas essenciais para otimizar a produtividade em solos tropicais. As práticas de calagem, gessagem e fosfatagem se destacam como estratégias eficazes para superar as limitações químicas dos solos, promovendo o crescimento radicular e a absorção de nutrientes. A compreensão detalhada dos métodos de amostragem e análise química do solo, assim como a seleção e aplicação adequadas dos corretivos, são fundamentais para garantir um manejo sustentável e eficiente do solo. Dessa forma, a utilização correta desses métodos não só melhora a qualidade do solo, mas também assegura o aumento da produtividade agrícola, fortalecendo a agricultura brasileira em diversos biomas e contribuindo para a segurança alimentar.

    Referências bibliográficas

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    CALCÁRIO agrícola: Saiba tudo sobre essa técnica. Saiba tudo sobre essa técnica. 2022. Disponível em: https://www.yarabrasil.com.br/conteudo-agronomico/blog/calcarioagricola/#:~:text=O%20calcário%20é%20uma%20rocha,impactos%20positivos%20para%20os%20cultivos.

    CHITOLINA, José Carlos et al. Amostragem de solo para análises de fertilidade, de manejo e de contaminação. In: SILVA, Fábio Cesar da (ed.). Manual de análise químicas de solo, plantas e fertilizantes. 2. ed. Brasília, Df: Embrapa Informação Tecnológica, 2009. Cap. 1. p. 23-57.

    DEMATTÊ, J. L. I. Solos arenosos de baixa fertilidade: estratégia de manejo. In: SEMANA AGROINDUSTRIAL, 5, SEMANA “LUIZ DE QUEIROZ”, 29, 1986, Piracicaba. Anais… Piracicaba: USP/ESALQ, 1986. (Mimeografado.)

    LOPES, A. S.; GUILHERME, L. R. G. Uso eficiente de fertilizantes: aspectos agronômicos. São Paulo: ANDA, 1990. 60 p. (ANDA. Boletim técnico, 4).

    MACHADO, Bianca de Almeida. O que é a prática da fosfatagem? 2021. Disponível em: https://agroadvance.com.br/blog-fosfatagem/.

    MALAVOLTA, E. ABC da Adubação. 5. ed. São Paulo: Agronômica Ceres, 1989. 292 p.

    MOTTA, Antônio Carlos Vargas; MELO, Vander de Freitas. Química dos Solos ácidos. In: MELO, Vander de Freitas; ALLEONI, Luís Reynaldo Ferracciú (ed.).

    Química e mineralogia dos solos: conceitos básicos e aplicações. Viçosa: SBCS, 2019. Cap. 12. p. 1009-1076.

    OTTO, Rafael; NASCIMENTO, Carlos A.C.. NUTRIÇÃO E ADUBAÇÃO DA SOJA E MILHO PARA ALTOS RENDIMENTOS. (Não publicado).

    PAVAN, M. A. et al. Manual de análise química de solo e controle de qualidade. Londrina: IAPAR, 1992.

    PAVINATO, Paulo Sergio. Corretivos agrícolas: uso eficiente e efeitos na produção. Piracicaba: Esalq, 2024. Color.

    QUAGGIO, José Antonio et al. Cana-de-açúcar. Boletim 100: recomendações de adubação e calagem para o Estado de São Paulo. Campinas: IAC, 2022.

    QUAGGIO, José Antonio. Acidez e calagem em solos tropicais. Campinas: Instituto Agronômico, 2000. 111 p.

    SOUSA, D. M. G.; LOBATO, E.; REIN, T. A. Recomendação de adubação fosfatada com base na capacidade tampão de fósforo para a região do Cerrado. Reunião Brasileira de Solo e Nutrição de Plantas, v. 27, 2006.

    SOUSA, D. M. G.de; LOBATO, E.; REIN, T. A. Uso do gesso agrícola nos solos do Cerrado. 2. ed. Planaltina: EMBRAPA-CPAC, 2005. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/568533/1/cirtec32.pdf.

    VELOSO, Carlos Alberto Costa et al. Correção da acidez do solo. In: BRASIL, Edilson Carvalho et alRecomendações de adubação para o estado do Pará. 2. ed. Brasília, Df: Embrapa, 2020. p. 121-131. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1125022/recomendacoes-de-calagem-e-adubacao-para-o-estado-do-para.

    VITTI, Godofredo Cesar et al. Uso do gesso em sistemas de produção agrícola. Piracicaba: GAPE, 2008.

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    Na agricultura, o uso de bioestimulante, solução com a finalidade de aumentar a produtividade das culturas agrícolas, tem se intensificado nos últimos anos. Constituídos por uma série de insumos como extratos de algas, hormônios sintéticos ou subprodutos de fermentação (Colla et al., 2014; Shalaby; El-Ramady, 2014), eles têm se mostrado promissor, tanto no tratamento de sementes quanto na aplicação foliar (Khan et al., 2009; Crainge, 2011, Soares, 2014).

    Mas, afinal, o que são bioestimulantes? Qualquer resíduo orgânico pode ser utilizado como tal? Quais são os principais bioestimulantes? Neste texto buscaremos discutir mais sobre esses insumos que têm sido tão discutidos e utilizados em diversos setores do agronegócio.

    O conceito de bioestimulante

    Apesar de muito discutido entre produtores e pesquisadores, o termo bioestimulante não existe formalmente na legislação brasileira. Essa carência de definição legal pode dificultar a comercialização de produtos e até mesmo a informação por parte do consumidor, que pode se encontrar perdido em meio a tantos produtos rotulados com esse nome.

    Contudo, em 2020 o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) lançou o Programa Nacional de Bioinsumos (PNB), onde define o conceito de bioestimulante como:

    “produto que contém substância natural com diferentes composições, concentrações e proporções, que pode ser aplicado diretamente nas plantas, nas sementes e no solo, com a finalidade de incrementar a produção, melhorar a qualidade de sementes, estimular o desenvolvimento radicular, favorecer o equilíbrio hormonal da planta e a germinação mais rápida e uniforme, interferir no desenvolvimento vegetal, estimular a divisão, a diferenciação e o alongamento celular, incluídos os processos e as tecnologias derivados do bioestimulante;”

    De forma mais simples e direta, o Conselho Europeu da Indústria de Bioestimulantes define o termo como “produtos que auxiliam as plantas adquirirem e utilizarem mais eficientemente os nutrientes disponíveis no solo, aumentam sua resiliência à estresses abióticos e melhoram a saúde do solo em geral”.

    No campo acadêmico, é possível encontrar a definição de Patrick du Jardin (2015):

    “Bioestimulante é qualquer substância ou microrganismo aplicado em plantas com o objetivo de aumentar a eficiência de uso de nutrientes, a tolerância ao estresse abiótico e/ou indicadores de qualidade da lavoura, independentemente de nutrientes em sua composição. Por extensão, bioestimulantes também englobam produtos comerciais contendo a mistura de tais substâncias e/ou microrganismos.” (Tradução própria)

    Fica evidente, portanto, que o termo bioestimulante abrange um amplo espectro de produtos, os quais podem ter origens diversas.

    Imagem ilustrativa produzida por IA da ação do bioestimulante no crescimento da planta e da sustentabilidade no campo.

    Do que um bioestimulante é composto?

    Segundo du Jardin (2015), é possível dividir os bioestimulantes em 6 categorias:

    1. Substâncias húmicas.
    2. Hidrolisados de proteína e outros compostos nitrogenados.
    3. Extratos de algas e plantas.
    4. Quitosana e outros biopolímeros
    5. Compostos inorgânicos
    6. Microrganismos benéficos.

    As substâncias húmicas são componentes naturais da matéria orgânica do solo, formadas a partir da decomposição de resíduos orgânicos e da atividade de microrganismos que utilizam esse substrato como fonte de energia. Elas são classificadas em três categorias, de acordo com sua solubilidade em meio aquoso: ácidos fúlvicos (AF), solúveis tanto em pH ácido quanto alcalino; ácidos húmicos (AH), solúveis em pH alcalino; e humina (HU), insolúvel em qualquer pH. Esses compostos estabelecem interações complexas com coloides do solo, raízes de plantas e exsudados radiculares.

    As substâncias húmicas representam entre 60% e 80% da matéria orgânica do solo e cerca de 80% do carbono orgânico presente. Sua atuação é fundamental para a fertilidade do solo, influenciando suas propriedades físicas, químicas e biológicas. Nos bioestimulantes, essas substâncias desempenham um papel essencial na promoção e facilitação da absorção de macro e micronutrientes, além de contribuírem para a disponibilização de fósforo. Adicionalmente, favorecem o crescimento radicular e podem mitigar estresses causados pelo uso de pesticidas e fertilizantes.

    Os hidrolisados de proteína e outros compostos nitrogenados são aminoácidos e substâncias peptídicas obtidos a partir de subprodutos da agroindústria, originados tanto de resíduos vegetais quanto animais. Esses compostos influenciam diversos processos fisiológicos das plantas, incluindo a absorção e assimilação de nitrogênio, a fixação de carbono e a produção de hormônios vegetais envolvidos na sinalização vegetal.

    Além disso, os hidrolisados de proteína podem estimular a síntese de proteínas nas plantas, aumentar a resistência ao estresse hídrico e a temperaturas elevadas, além de conferir maior tolerância ao ataque de pragas e doenças.

    Os extratos de algas e plantas são fontes de matéria orgânica utilizadas como fertilizantes desde os primórdios da agricultura. Esses compostos são ricos em aminoácidos, vitaminas, minerais, polissacarídeos e hormônios vegetais. Os polissacarídeos presentes nesses materiais desempenham um papel importante na retenção de água e na aeração do solo.

    Além disso, esses extratos apresentam efeitos positivos na promoção do crescimento de bactérias antagônicas a patógenos, na germinação de sementes, no estabelecimento das plantas e no desenvolvimento das culturas. Também contribuem para a proteção contra estresses abióticos e bióticos, além de favorecer a recuperação das plantas em condições adversas.

    Volt:
Bioativação Metabólica & Tolerância a estresses
Uma solução da Gênica

    A quitosana e outros biopolímeros podem ter origem natural ou sintética, sendo capazes de induzir mecanismos de defesa contra doenças e conferir resistência a estresses abióticos. Alguns desses biopolímeros são derivados de algas marinhas, conforme mencionado anteriormente.

    Os compostos inorgânicos, por sua vez, visam fornecer elementos benéficos, ou seja, aqueles que, embora não sejam considerados nutrientes essenciais para que a planta complete seu ciclo de vida (Malavolta, 2006), apresentam efeitos positivos no metabolismo vegetal. Entre eles, destacam-se o silício (Si), o selênio (Se) e o cobalto (Co). Diversos benefícios desses elementos já foram documentados na literatura, incluindo o enrijecimento da parede celular, a osmorregulação, a redução da transpiração, a regulação térmica, a ativação enzimática por meio de cofatores e a proteção antioxidante.

    Entre os microrganismos benéficos, destacam-se os fungos micorrízicos, que estabelecem simbiose com mais de 90% das espécies vegetais, auxiliando na absorção de água e nutrientes pelas plantas. No grupo das bactérias, um exemplo amplamente conhecido são as diazotróficas do gênero Rhizobium, responsáveis pela formação de nódulos em raízes de soja e outras leguminosas, além das bactérias de vida livre do gênero Azospirillum. Ambas desempenham um papel essencial na fixação biológica do nitrogênio atmosférico, tornando-o disponível para as culturas agrícolas. Essa interação contribui significativamente para a redução da dependência de fertilizantes nitrogenados, auxiliando na diminuição dos custos de produção.

    Conclusão

    Sistemas produtivos e eficientes são cada vez mais necessários para garantir a sustentabilidade econômica da atividade agrícola, bem como a sustentabilidade ambiental. Nesse contexto, os bioestimulantes surgem como alternativas promissoras para aprimorar a qualidade dos solos e estimular o crescimento vigoroso e saudável das culturas agrícolas.

    Embora o termo ainda careça de uma definição consensual, o uso de bioestimulantes envolve a aplicação de substâncias cujos benefícios foram descobertos por meio da observação detalhada de processos biológicos complexos, até então não compreendidos. A partir da identificação e utilização desses insumos, é possível potencializar a produtividade agrícola e oferecer soluções para enfrentar desafios como secas prolongadas e solos inférteis.

    Referências bibliográficas

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    du JARDIN, Patrick. Plant biostimulants: definition, concept, main categories and regulation. Scientia Horticulturae, [S.L.], v. 196, p. 3-14, nov. 2015. Elsevier BV. http://dx.doi.org/10.1016/j.scienta.2015.09.021.

    KHAN, W.; RAYIRATH, U.P.; SUBRAMANIAN, S.; JITHESH, M.N.; RAYORATH, P.; HODGES, D.M.; CRITCHLEY, A.T.; CRAIGIE, J.S; NORRIE, J.; PRITHIVIRAJ, B. Seaweed extracts as biostimulants of plant growth and development. Journal of Plant Growth Regulation, Secaucus, v.28, p.386-399, 2009.

    MALAVOLTA, E. Manual de nutrição mineral de plantas. São Paulo, Agronômica Ceres, 2006. 638p.

    Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Conceitos: Conheça a base conceitual do Programa Nacional de Bioinsumos. Programa Nacional de Bioinsumos. Brasília, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/inovacao/bioinsumos/o-programa/conceitos. Acesso em: 31 jul. 2024.

    SHALABY, T. A.; EL-RAMADY, H. Effect of foliar application of bio-stimulants on growth, yield, components, and storability of garlic (Allium sativum L.). Australian Journal of Crop Science, Madison, v.8, n.2, p.271-275, 2014.

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    Fungos benéficos para o controle de doenças do solo https://genica.com.br/fungos-beneficos/ https://genica.com.br/fungos-beneficos/#respond Fri, 14 Mar 2025 19:40:43 +0000 https://agro.genica.com.br/?p=2965 As doenças do solo representam um dos maiores desafios para a agricultura moderna, comprometendo a produtividade e a saúde das culturas. No entanto, os microrganismos benéficos, como fungos, por exemplo, oferecem uma alternativa sustentável e eficiente para o manejo dessas doenças, atuando como aliados no controle biológico e na promoção do equilíbrio do ecossistema agrícola. […]

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    As doenças do solo representam um dos maiores desafios para a agricultura moderna, comprometendo a produtividade e a saúde das culturas. No entanto, os microrganismos benéficos, como fungos, por exemplo, oferecem uma alternativa sustentável e eficiente para o manejo dessas doenças, atuando como aliados no controle biológico e na promoção do equilíbrio do ecossistema agrícola.

    Entre eles, Trichoderma spp., se destaca como uma ferramenta essencial no manejo fitossanitário, especialmente em culturas como soja e milho.

    Neste artigo, exploramos o papel desses microrganismos e como sua incorporação às estratégias de manejo pode reduzir a dependência de defensivos químicos, promovendo uma agricultura mais sustentável.

    O que são fungos benéficos e como atuam no solo?

    Fungos benéficos são microrganismos naturais que desempenham papéis fundamentais no controle biológico de doenças do solo. Eles agem de diversas maneiras:

    Antagonismo: Competem por espaço e nutrientes com patógenos, inibindo seu desenvolvimento.

    Parasitismo: Atacam diretamente os agentes causadores de doenças, degradando suas estruturas celulares.

    Produção de metabólitos: Liberam compostos tóxicos para patógenos, reduzindo sua viabilidade.

    Melhoria do solo: Promovem a estruturação e aumentam a disponibilidade de nutrientes.

    Na prática, os fungos benéficos atuam de forma preventiva, formando uma barreira protetora no solo e inibindo o desenvolvimento de patógenos. Quando aplicados corretamente, reduzem significativamente a incidência de doenças do solo que prejudicam a produtividade da lavoura.

    Imagem 1: A aplicação de fungos benéficos protege o cultivo. Na foto, é possível observar escleródios de mofo branco (Sclerotinia sclerotiorum) infectados por Trichoderma.
Fonte: Circular Técnica Embrapa
    Imagem 1: A aplicação de fungos benéficos protege o cultivo. Na foto, é possível observar escleródios de mofo branco (Sclerotinia sclerotiorum) infectados por Trichoderma.
    Fonte: Circular Técnica Embrapa.

    Fungos benéficos: conheça a atuação de Trichoderma spp.

    Trichoderma spp., é amplamente reconhecido como um dos fungos benéficos mais eficazes no manejo biológico de doenças do solo. Sua principal atuação se dá por meio do antagonismo contra patógenos, utilizando estratégias como o parasitismo, a produção de metabólitos antifúngicos e a competição por espaço e nutrientes. No parasitismo, Trichoderma spp. penetra e degrada a parede celular de fungos fitopatogênicos, impedindo sua proliferação. Além disso, ele libera enzimas e compostos voláteis que inibem o crescimento de organismos como Fusarium spp., Sclerotinia sclerotiorum e Macrophomina phaseolina, responsáveis por doenças como fusariose, mofo branco e podridões radiculares. Essa capacidade de supressão natural torna o Trichoderma spp. um aliado essencial na redução da dependência de fungicidas químicos, promovendo um manejo mais sustentável.

    Além disso, o fungo contribui para a saúde do solo, pois melhora a estrutura física e química do ambiente radicular, promovendo um ecossistema equilibrado e favorável ao crescimento das culturas. Dessa forma, a aplicação de Trichoderma spp. não apenas combate doenças, mas também potencializa o desempenho agrícola, sendo uma ferramenta indispensável para sistemas de produção sustentáveis.

    Imagem 2: O fungo Trichoderma é um importante aliado no controle biológico de doenças.

Fonte: Divulgação Embrapa
    Imagem 2: O fungo Trichoderma é um importante aliado no controle biológico de doenças.
    Fonte: Divulgação Embrapa

    Estratégias de aplicação de fungos benéficos

    Para garantir o sucesso do uso de fungos benéficos no controle de doenças, é essencial observar algumas estratégias específicas:

    Tratamento de sementes: Incorporar fungos benéficos diretamente às sementes é uma das formas mais eficazes de protegê-las desde o início do desenvolvimento. Por exemplo, o uso de Trichoderma spp. no tratamento de sementes de soja pode reduzir a incidência de patógenos como Rhizoctonia solani, que ocasionam tombamento de plântulas.

    Inoculação no solo: a aplicação de fungos no solo, pode ser realizada diretamente no sulco de semeadura, ou via barra em área total.

    Pulverizações foliares complementares: Embora o foco seja o controle de doenças do solo, algumas espécies de fungos benéficos podem ser aplicadas nas folhas, criando uma proteção sistêmica.

    Aplicação de fungos na cultura de cobertura: A aplicação de fungos benéficos em culturas de cobertura potencializa a saúde do solo, favorecendo a supressão de patógenos e a ciclagem de nutrientes. Microrganismos como Trichoderma spp. colonizam a rizosfera dessas plantas, criando um ambiente mais equilibrado e protegendo a lavoura subsequente contra doenças, além de contribuir para a melhoria da estrutura e fertilidade do solo.

    A escolha  correta do momento de aplicação é fundamental para maximizar a eficácia dos fungos benéficos. Sua introdução no plantio permite a colonização precoce do solo e das raízes, prevenindo doenças em fases críticas do desenvolvimento da cultura. Aplicações antecipadas proporcionam mais tempo para o estabelecimento dos microrganismos, potencializando sua ação e garantindo melhores resultados em campo.

    Imagem 3: A aplicação correta do fungo benéfico é um fator essencial para o resultado de sua atuação.

Fonte: Terra Magna
    Imagem 3: A aplicação correta do fungo benéfico é um fator essencial para o resultado de sua atuação.
    Fonte: Terra Magna

    Benefícios do uso de fungos no manejo integrado

    O uso de fungos benéficos no manejo integrado de doenças do solo oferece uma série de vantagens que vão além do controle direto de patógenos. Esses microrganismos desempenham múltiplas funções que contribuem para a saúde geral das culturas e a sustentabilidade dos sistemas agrícolas.

    Redução do uso de defensivos químicos: Uma das maiores vantagens do uso de fungos benéficos é a possibilidade de reduzir a aplicação de fungicidas químicos. Isso não apenas diminui os custos com insumos, mas também minimiza os impactos ambientais, como a contaminação de solos e recursos hídricos. Além disso, reduz-se o risco de resistência de patógenos a produtos químicos, um problema crescente em monoculturas como soja e milho.

    Aumento da produtividade: Os fungos benéficos contribuem para a melhoria do sistema radicular das plantas, promovendo maior absorção de água e nutrientes. Por exemplo, a presença de Trichoderma spp. pode estimular o desenvolvimento de raízes secundárias, resultando em plantas mais vigorosas e resistentes a condições de estresse, como seca ou baixa fertilidade do solo.

    Melhoria da estrutura e fertilidade do solo: Ao colonizar o solo, os fungos benéficos não apenas competem com patógenos, mas também ajudam a decompor matéria orgânica, liberando nutrientes essenciais para as plantas. Isso melhora a estrutura do solo, aumenta sua capacidade de retenção de água e favorece a biodiversidade microbiana, criando um ambiente mais equilibrado para o desenvolvimento das culturas.

    Resistência sistêmica induzida: Muitos fungos benéficos estimulam as defesas naturais das plantas, um fenômeno conhecido como resistência sistêmica induzida (RSI). Isso torna as culturas mais resilientes a ataques futuros de patógenos, como os causadores de fusariose, podridão radicular e mofo branco.

    Sustentabilidade e certificações: Em um cenário onde mercados internacionais e consumidores exigem práticas agrícolas mais sustentáveis, o uso de fungos benéficos posiciona os produtores como protagonistas de uma agricultura regenerativa e de baixo impacto ambiental. Além disso, o manejo biológico facilita o cumprimento de requisitos para certificações de boas práticas agrícolas, agregando valor aos produtos.

    Compatibilidade com outras tecnologias: Fungos benéficos podem ser integrados a outras práticas de manejo, como a rotação de culturas, uso de culturas de cobertura, uso fertilizantes químicos e orgânicos e defensivos químicos. Essa sinergia potencializa os benefícios de todas as práticas envolvidas, criando um sistema mais eficiente e resiliente.

    Em culturas como a soja e o milho, os benefícios são ainda mais evidentes devido ao histórico de alta pressão de doenças nesses sistemas de produção. O manejo integrado com fungos benéficos não apenas garante a sanidade das plantas, mas também contribui para a longevidade e produtividade dos solos, promovendo colheitas mais rentáveis e sustentáveis ao longo do tempo.

    Desafios e cuidados na utilização de fungos benéficos

    Embora os fungos benéficos sejam uma ferramenta poderosa no manejo de doenças do solo, seu uso requer planejamento estratégico e cuidados específicos para maximizar os resultados.

    Condições ambientais: A eficácia dos fungos benéficos está intimamente ligada ao ambiente do solo. Fatores como temperatura, umidade, pH e matéria orgânica influenciam diretamente a capacidade de sobrevivência e colonização dos microrganismos. Por exemplo, solos muito secos podem dificultar a germinação dos esporos, enquanto temperaturas extremas podem inibir o crescimento do fungo. É essencial preparar o solo, garantindo níveis adequados de umidade e estruturação.

    Qualidade dos produtos biológicos: O mercado de produtos biológicos está em expansão, mas é crucial adquirir insumos de fornecedores confiáveis. Produtos de baixa qualidade, com contaminações ou baixa viabilidade de microrganismos, podem comprometer os resultados.

    Compatibilidade com outros insumos: O uso simultâneo de fungos benéficos com fertilizantes químicos ou defensivos agrícolas pode ser um desafio. Algumas moléculas químicas, como fungicidas de amplo espectro, podem eliminar os fungos benéficos antes que eles tenham a chance de agir. Para evitar esse problema, opte por produtos compatíveis e siga orientações técnicas de aplicação, garantindo que o manejo seja integrado e harmonioso.

    Monitoramento: A avaliação contínua é indispensável. Após a aplicação, é importante acompanhar indicadores como a redução de patógenos, a colonização do fungo no solo e o impacto na saúde das plantas. Isso pode ser feito por meio de análises laboratoriais ou observação direta no campo, com foco no desenvolvimento radicular e na incidência de doenças.

    Persistência e reinoculação: Mesmo em condições ambientais favoráveis ao seu desenvolvimento, deve-se atentar para a frequência de aplicação de fungos benéficos, pois o sistema agrícola convencional está em desequilíbrio. A aplicação frequente e em alta concentração de esporos de produtos biológicos garante a competição eficaz contra patógenos, promovendo a colonização e proteção contínua das plantas. Isso assegura uma população robusta, capaz de se adaptar a variações ambientais. Aplicações regulares mantêm o equilíbrio microbiológico, potencializando o biocontrole.

    Conclusão

    Os fungos benéficos representam uma solução inovadora e sustentável para o controle de doenças do solo, especialmente em culturas de soja e milho. Ao combinarem ação direta contra patógenos com melhorias na saúde do solo, esses microrganismos ajudam a transformar a agricultura, tornando-a mais produtiva e resiliente. No entanto, para que seu potencial seja plenamente aproveitado, é essencial seguir boas práticas de manejo, garantindo condições favoráveis para sua atuação. Com o uso adequado, os fungos benéficos podem ser a chave para um sistema agrícola mais equilibrado e sustentável.

    Referências bibliográficas

    ARAÚJO, F. F.; HUNGRIA, M. Microrganismos benéficos no solo. Embrapa, 2023.

    CAMPOS, M. A.; SANTOS, J. R. Controle biológico de doenças: potencial dos fungos benéficos. Revista Agroecologia, 2022.

    EMBRAPA Soja. Estratégias de manejo integrado com Trichoderma spp. Circular Técnica, 2021.

    PEREIRA, L. B. et al. Impactos de fungos benéficos no controle de patógenos em sistemas agrícolas. Ciência Rural, 2022.

    Camila Vargas Formada em Tecnologia Agropecuária pela UERGS, Graduação em Agronomia pela UNIBTA, mestre em Fitotecnia/Fitomologia pela UFRGS. Clique para acessar seu perfil no LinkedIn.

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    Proteção de solo: estratégias para aplicar durante o verão https://genica.com.br/protecao-de-solo/ https://genica.com.br/protecao-de-solo/#respond Fri, 28 Feb 2025 19:20:46 +0000 https://agro.genica.com.br/?p=2955 O verão é uma época que pode trazer desafios significativos para a proteção do solo, especialmente em regiões de cultivo intensivo de grãos. A combinação de altas temperaturas, chuvas intensas e períodos de estiagem exige medidas estratégicas para mitigar problemas como erosão, perda de nutrientes e compactação do solo. Proteger esse recurso essencial é fundamental […]

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    O verão é uma época que pode trazer desafios significativos para a proteção do solo, especialmente em regiões de cultivo intensivo de grãos. A combinação de altas temperaturas, chuvas intensas e períodos de estiagem exige medidas estratégicas para mitigar problemas como erosão, perda de nutrientes e compactação do solo.

    Proteger esse recurso essencial é fundamental não apenas para a sustentabilidade agrícola, mas também para garantir a produtividade a longo prazo. Neste artigo, abordaremos estratégias eficazes para conservar o solo durante o verão, com orientações técnicas e acessíveis que podem ser aplicadas em diferentes condições de cul

    Proteção de solo: Uso de culturas de cobertura

    As culturas de cobertura desempenham um papel essencial na proteção do solo durante o verão, formando uma barreira viva contra os efeitos adversos do clima. Plantas como braquiária, milheto, crotalária e nabo forrageiro são amplamente utilizadas devido à sua capacidade de reduzir a erosão e melhorar a estrutura do solo. Essas culturas ajudam a diminuir o impacto das chuvas torrenciais, reduzindo a desagregação do solo e o escoamento superficial.

    Além disso, as culturas de cobertura promovem a retenção de umidade no solo, favorecendo a infiltração de água e prevenindo a formação de crostas superficiais. Elas também atuam na ciclagem de nutrientes, devolvendo ao solo elementos essenciais como nitrogênio e potássio. A escolha da espécie ideal deve considerar as características do solo, o regime de chuvas e as culturas principais. Quando manejadas adequadamente, essas plantas podem ser dessecadas ou incorporadas ao solo no momento certo, garantindo uma transição suave para as culturas comerciais.

    Imagem 1: A crotalária é uma espécie excelente para ser usada como cobertura de solo.
Fonte: Blog Syngenta
    Imagem 1: A crotalária é uma espécie excelente para ser usada como cobertura de solo.
    Fonte: Blog Syngenta

    Proteção de solo: Manejo da palhada para reduzir a erosão

    O manejo da palhada é uma prática indispensável para proteger o solo, especialmente durante os meses de verão, quando o risco de erosão é elevado. A palhada formada pelos restos culturais de soja, milho e algodão cria uma camada protetora que age como um escudo contra o impacto direto das gotas de chuva. Essa barreira física reduz significativamente a desagregação das partículas de solo, prevenindo a formação de sulcos e o transporte de sedimentos.

    Além disso, a palhada desempenha um papel crucial na manutenção da umidade do solo, reduzindo a evaporação e garantindo melhores condições para o desenvolvimento das raízes das plantas. Ela também serve como fonte de matéria orgânica, alimentando microrganismos benéficos que ajudam a melhorar a estrutura e a fertilidade do solo. Para maximizar os benefícios da palhada, é essencial garantir sua distribuição uniforme após a colheita e evitar práticas que promovam sua decomposição acelerada.

    Imagem 2: A conservação da palhada evita erosão do solo e protege contra a perda de partículas do solo.

Fonte: Brasmax
    Imagem 2: A conservação da palhada evita erosão do solo e protege contra a perda de partículas do solo.
    Fonte: Brasmax

    Proteção de solo: Práticas de plantio direto

    O plantio direto é uma estratégia comprovada para a conservação do solo e a manutenção de sua produtividade. Esse sistema consiste em evitar o revolvimento do solo, preservando sua estrutura natural e mantendo uma cobertura vegetal constante. Durante o verão, o plantio direto oferece vantagens significativas, como a retenção de umidade e a redução da compactação causada pelas chuvas intensas.

    Uma das principais características do plantio direto é sua capacidade de minimizar a lixiviação de nutrientes, mantendo-os disponíveis para as plantas. Além disso, o sistema promove a atividade biológica no solo, estimulando o desenvolvimento de microrganismos que contribuem para a decomposição da matéria orgânica e a liberação gradual de nutrientes. Para implementar o plantio direto com sucesso, é necessário realizar uma rotação de culturas eficiente e manejar adequadamente as plantas de cobertura, garantindo a proteção contínua do solo ao longo do ano.

    Imagem 3: O uso do sistema de plantio direto traz diversos benefícios para o solo.

Fonte: Booster Agro
    Imagem 3: O uso do sistema de plantio direto traz diversos benefícios para o solo.
    Fonte: Booster Agro

    Proteção de solo: Implementação de técnicas de terraceamento

    O terraceamento é uma prática tradicional que continua sendo uma das estratégias mais eficazes para proteger o solo em terrenos inclinados ou áreas sujeitas a chuvas intensas. Os terraços funcionam como barreiras físicas que reduzem a velocidade do escoamento da água, prevenindo a erosão e a formação de ravinas. Quando bem projetados, os terraços também aumentam a infiltração de água no solo, contribuindo para a recarga hídrica e a estabilidade das culturas.

    O sucesso do terraceamento depende de um planejamento detalhado, que deve levar em conta fatores como o tipo de solo, a declividade do terreno e o regime de chuvas. A manutenção periódica dos terraços é igualmente importante, garantindo que eles permaneçam funcionais e livres de obstruções. Em combinação com outras práticas de conservação, como o uso de culturas de cobertura e o plantio direto, o terraceamento se torna uma ferramenta poderosa para realizar a proteção do solo e melhorar a eficiência hídrica em sistemas de cultivo intensivo.

    Imagem 4: Terraceamento reduz erosão e protege o solo.

Fonte: Revista A Lavoura
    Imagem 4: Terraceamento reduz erosão e protege o solo.
    Fonte: Revista A Lavoura

    Conclusão

    A proteção do solo durante o verão é um desafio que exige uma abordagem integrada e estratégica. O uso de culturas de cobertura, o manejo eficiente da palhada, a adoção do plantio direto e a implementação de terraços são práticas que, além de preservar o solo, promovem uma agricultura mais resiliente e produtiva.

    Essas estratégias não apenas evitam a degradação do solo, mas também contribuem para a conservação dos recursos hídricos e o aumento da sustentabilidade das lavouras. Investir na conservação do solo é essencial para garantir colheitas saudáveis hoje e para as próximas gerações, preservando a base da produção agrícola.

    Referências bibliográficas

    EMBRAPA. (2023). Práticas de conservação do solo e água. Disponível em: www.embrapa.br.

    FAO. (2023). Soluções sustentáveis para o manejo do solo. Disponível em: www.fao.org.

    CONAB. (2023). Relatório de monitoramento agrícola: impactos climáticos no solo. Disponível em: www.conab.gov.br.

    Camila Vargas Formada em Tecnologia Agropecuária pela UERGS, Graduação em Agronomia pela UNIBTA, mestre e doutora em Fitotecnia/Entomologia pela UFRGS Clique para acessar o LinkedIn

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    Agricultura regenerativa: o manejo do futuro https://genica.com.br/agricultura-regenerativa-o-manejo-do-futuro/ https://genica.com.br/agricultura-regenerativa-o-manejo-do-futuro/#respond Fri, 21 Feb 2025 20:38:34 +0000 https://agro.genica.com.br/?p=2944 O termo “agricultura regenerativa” popularizou-se nos últimos anos e é repetido em muitos lugares: redes sociais, televisão, feiras do agronegócio, simpósios, livros, revistas e universidades. Também conhecida por agricultura sustentável ou agricultura climaticamente inteligente, a prática atrai a atenção de produtores que procuram se aproveitar da “onda verde” para aumentar sua rentabilidade, diferenciar seu produto […]

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    O termo “agricultura regenerativa” popularizou-se nos últimos anos e é repetido em muitos lugares: redes sociais, televisão, feiras do agronegócio, simpósios, livros, revistas e universidades. Também conhecida por agricultura sustentável ou agricultura climaticamente inteligente, a prática atrai a atenção de produtores que procuram se aproveitar da “onda verde” para aumentar sua rentabilidade, diferenciar seu produto e caminhar para sistemas de cultivo com menores impactos à natureza.

    Mas, afinal, o que é agricultura regenerativa? O conceito e o caminho para sua implementação são desconhecidos por muitos e, quando conhecidos, são acompanhados de dúvidas quanto a sua aplicabilidade e viabilidade econômica. Neste texto buscaremos expor o conceito original da agricultura regenerativa, como é interpretado atualmente, os caminhos para sua implementação e exemplos de produtores que adotaram, com êxito, a prática.

    O conceito original e sua interpretação atual

    Imagem 1: Robert Rodale, conceituador da agricultura regenerativa.
Fonte: Rodale Institute
    Imagem 1: Robert Rodale, conceituador da agricultura regenerativa.
    Fonte: Rodale Institute

    Ainda em 1983, Robert Rodale destacou como a agricultura convencional consistia em técnicas que buscavam dominar a natureza, alterando-a à vontade do agricultor para a extração das suas produções. Esta abordagem, segundo ele, era insustentável e representava um constante confronto entre homem e o ambiente, que resultava na perda de áreas produtivas com a erosão dos solos e o desaparecimento de polinizadores, por exemplo.

    Dessa forma, o único caminho a ser adotado pelos produtores que garantiria a produtividade de suas terras seria por meio da agricultura regenerativa, onde se buscaria entender a natureza para que essa entregue seu máximo potencial produtivo com o mínimo esforço possível.

    Atualmente, o foco da agricultura regenerativa expandiu seu aspecto “regenerativo” para além da safra seguinte, e passou a incorporar práticas para sequestrar carbono da atmosfera, proteger nascentes e microbacias hidrográficas e recuperação da biodiversidade animal e vegetal da região (Rainforest Alliance, 2020). Além disso, considerando a falta de uma definição acadêmica comum, o conceito pode ser expandido como quaisquer práticas que protejam e fortaleçam os benefícios inerentes do agroecossistema, finalmente conduzindo à redução no uso de insumos externos, como fertilizantes e defensivos agrícolas, e aumentando a margem de lucro dos produtores com a redução dos custos de produção (Rainforest Alliance, 2020).

    Os pilares da agricultura regenerativa

    A agricultura regenerativa se concentra em três pilares principais: solo, biodiversidade e água. Os pilares representam os principais recursos naturais das terras agrícolas que são essenciais para melhorar e manter a produtividade e qualidade ambiental das propriedades agrícolas.

    Imagem 2: O modelo holístico da agricultura regenerativa aplicado à produção de café (Pulleman et al., 2023).

Fonte: Alliance Bioversity CIAT
    Imagem 2: O modelo holístico da agricultura regenerativa aplicado à produção de café (Pulleman et al., 2023).
    Fonte: Alliance Bioversity CIAT

    Solo:

    Os solos são um recurso essencial que sustenta a base do nosso sistema alimentar. Sua formação ocorre ao longo de milhões de anos, resultando em uma diversidade de tipos de solo influenciados por fatores como relevo, material de origem, clima e organismos. O manejo da terra exerce um impacto significativo sobre as propriedades químicas, físicas e biológicas do solo. Práticas inadequadas podem gerar diversas ameaças, especialmente em áreas agrícolas, incluindo erosão, redução da matéria orgânica e da fertilidade, declínio da biodiversidade, acidificação e compactação. Esses fatores comprometem diretamente a produtividade dos sistemas agrícolas.

    Manter a saúde do solo é fundamental para aumentar a resiliência climática dos sistemas produtivos, favorecendo a retenção de umidade, proporcionando boas condições de enraizamento e contribuindo para a supressão de doenças. Além disso, solos saudáveis desempenham um papel crucial no armazenamento de carbono orgânico e na produção de biomassa, ajudando a mitigar os gases de efeito estufa.

    A agricultura regenerativa surge como uma estratégia eficaz para melhorar a saúde do solo, pois contribui para o controle da erosão e do escoamento superficial, reduz a compactação ao minimizar o preparo do solo, mantém a cobertura de solo/vegetal permanente, promove a reciclagem da matéria orgânica, otimiza a manutenção dos nutrientes e reduz a necessidade do uso de pesticidas.

    Biodiversidade:

    A biodiversidade corresponde à variedade de organismos que compõem um ecossistema e pode ser analisada em diferentes níveis: (i) variação biológica entre ecossistemas, (ii) diversidade entre espécies e (iii) variação genética dentro de uma mesma espécie. No contexto agrícola, a biodiversidade funcional refere-se à seleção de espécies pelo agricultor para desempenhar funções essenciais que, em ecossistemas naturais, seriam realizadas por uma ampla diversidade de organismos.

    Entre os principais objetivos da agricultura regenerativa, destaca-se o aprimoramento e o uso sustentável da biodiversidade. A conversão de áreas naturais em sistemas de produção agrícola é um dos principais impactos da atividade agrícola sobre a biodiversidade, levando à fragmentação de habitats. Muitos cultivos seguem um modelo historicamente simplificado, baseado na monocultura e no uso intensivo de agroquímicos, o que pode comprometer a biodiversidade local. O uso indiscriminado de pesticidas, por exemplo, pode afetar organismos não alvo, incluindo insetos benéficos.

    Promover a biodiversidade nos agroecossistemas traz benefícios diretos à produção agrícola. A restauração e o equilíbrio ecológico do ambiente podem reduzir a dependência de insumos químicos e aumentar a resiliência dos sistemas produtivos. Isso, por sua vez, contribui para a sustentabilidade da produção e pode gerar uma redução nos custos para o agricultor.

    Água:

    A disponibilidade, qualidade e gestão dos recursos hídricos são essenciais para garantir o acesso à água potável em diferentes usos, incluindo o doméstico, agrícola e industrial. No entanto, a extração excessiva e a poluição gerada por atividades agrícolas e industriais representam sérias ameaças à segurança hídrica. A lixiviação de pesticidas, fertilizantes e outros contaminantes contribui para o fenômeno da eutrofização em corpos d’água, sejam superficiais ou subterrâneos, comprometendo a biodiversidade e o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.

    Fatores como mudanças climáticas, desmatamento e alterações no uso da terra podem impactar diretamente a disponibilidade e a qualidade da água, intensificando eventos extremos como secas e inundações. Esses fenômenos afetam a produtividade agrícola e podem danificar infraestruturas essenciais para a produção e o abastecimento.

    Nesse contexto, práticas regenerativas voltadas para a conservação dos recursos hídricos desempenham um papel fundamental. O manejo sustentável do solo contribui para a melhoria da infiltração e armazenamento de água, reduzindo o escoamento superficial e minimizando a necessidade de insumos agroquímicos. Dessa forma, além de garantir uma maior resiliência hídrica, essas estratégias favorecem a sustentabilidade dos sistemas produtivos.

    Como implementar a agricultura regenerativa?

    Imagem 2: A conversão de solos erodidos em solos resilientes.

Fonte: SENAR e Getty Images / BBC News Brasil
    Imagem 3: A conversão de solos erodidos em solos resilientes.
    Fonte: SENAR e Getty Images / BBC News Brasil

    Apesar de parecer algo distante, muitos dos manejos agrícolas difundidos hoje em dia em grandes lavouras de soja, milho, algodão, café e outras já empregam técnicas conservacionistas que são a base da agricultura regenerativa: o plantio direto, o manejo integrado de pragas, a rotação de culturas, os sistemas digitais de inteligência, o melhoramento genético de plantas. Todas essas práticas aumentam a produtividade por área, reduzem a necessidade de insumos, promovem a saúde do solo, reduzem o consumo de combustível, em geral aumentando a eficiência da operação (CropLife, s.d.).

    Para a implementação da agricultura regenerativa em lavouras convencionais, vários princípios e práticas podem ser adotados em diferentes escalas:

    Na lavoura: na escala do campo, onde as plantas são cultivadas, o princípio chave é promover a saúde do solo, o que significa melhorar seus aspectos físicos, químicos e biológicos. Isso pode ser feito com a adição de matéria orgânica ao solo, o uso de plantas de cobertura, plantio-direto, uso de bioinsumos, rotação de culturas e consórcios. A implementação dessas práticas melhora a disponibilidade de nutrientes e capacidade de troca do solo. Uma melhor estrutura resulta em uma maior capacidade de retenção e infiltração de água, além de aumentar a atividade biológica. Como resultado, haverá sequestro de carbono, disponibilidade de nutrientes e supressão de pragas e doenças, reduzindo a dependência de fertilizantes e pesticidas. Para a redução no uso de defensivos, o Manejo Integrado de Pragas (MIP) mostra-se uma excelente ferramenta para os agricultores (Rainforest Alliance, 2020).

    Na fazenda: considerando a área total da fazenda, o objetivo é proteger e gerenciar os ecossistemas naturais para conservar a biodiversidade e aumentar os serviços que esses sistemas podem oferecer. Áreas de preservação de florestas e matas ciliares, além da possibilidade de implementação de sistemas agroflorestais ou integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), provêm abrigo para diversas espécies chave de animais, incluindo algumas importantes para os sistemas agrícolas, como os polinizadores e inimigos naturais de pragas agrícolas (Rainforest Alliance, 2020).

    No âmbito regional: nessa escala cabe pensar no conjunto de propriedades próximas como um instrumento de suporte à conservação da biodiversidade e de mitigação das mudanças climáticas. Os princípios de preservação da biodiversidade devem se conectar em outras propriedades, promovendo a conexão de áreas de preservação, constituindo corredores ecológicos e a proteção de ecossistemas chave para determinadas espécies e para o abastecimento de água dos rios e lagos (Rainforest Alliance, 2020). Além disso, a adoção da agricultura regenerativa tem efeitos positivos na produtividade, reduzindo a pressão sobre as florestas devido a expansão agrícola.

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    Agricultura regenerativa na prática

    Imagem 3: Lavoura de café em sistema agroflorestal

Fonte: Center for Tropical Agriculture (CIAT)
    Imagem 4: Lavoura de café em sistema agroflorestal
    Fonte: Center for Tropical Agriculture (CIAT)

    Um dos casos mais representativos de implementação de agricultura regenerativa pode ser encontrado na cultura do café. Como uma cultura perene tolerante à sombra, o café possui um alto potencial para contribuir com a conservação da biodiversidade, restauração de áreas degradadas e técnicas para sequestro de carbono (Pulleman et al., 2023).

    A produtividade de cafezais é altamente variável entre as regiões produtoras. De um lado é possível encontrar países como o Brasil e Vietnã, com altas produções variando de 1,5 a 2,5 toneladas de grão verde por hectare, utilizando manejos intensivos com alto uso de insumos externos, mas representando um risco ambiental significativamente alto. De outro, encontram-se regiões que produzem entre 0,5 e 1 tonelada de grão verde por hectare, comum na maioria dos países produtores de café onde predominam pequenos produtores (Pulleman et al., 2023).

    Isso implica em dizer que, ao partirem para manejos regenerativos, agricultores de diferentes regiões partem de situações diferentes e talvez tenham objetivos e prioridades distintos. Como resultado, o caminho para a agricultura regenerativa se dá por outros passos.

    Isso não necessariamente significa que agricultores devem passar por um trade-off entre produtividade e sustentabilidade. Por exemplo, pequenos agricultores que utilizam poucos insumos agrícolas em suas propriedades muitas vezes têm a fertilidade de seus solos esgotada e uma pobre saúde do solo; nesses casos a instauração de práticas agrícolas regenerativas pode auxiliar no aumento de produção e renda para as famílias. Grandes produtores, que utilizam de altos volumes de fertilizantes e defensivos agrícolas, podem otimizar o seu uso de água e nutrientes com práticas regenerativas, reduzindo custos de produção e aumentando as margens de lucro (Pulleman et al., 2023).

    Por fim, com o advento dos selos e certificações de sustentabilidade, um novo mercado se abre aos produtores. Com altas bonificações por certificados de produções que contribuam com a preservação da biodiversidade, os agricultores podem alavancar sua receita de venda e aumentar a rentabilidade da atividade agrícola.

    Conclusão

    A agricultura regenerativa é uma abordagem holística à agricultura sustentável que foca em restaurar os recursos naturais em fazendas e nas paisagens ao redor. O seu conceito não é novo, e passou por muitas mudanças e adaptações para se encaixar nas diversas regiões produtoras do planeta, e deve ser adaptado para cada situação.

    A sua implementação já ocorre em vários níveis, muitas vezes sem a consciência de que são práticas sustentáveis que condizem com o conceito de agricultura regenerativa, o que reforça a sua viabilidade econômica e prática.

    Referências bibliográficas

    Agricultura regenerativa: a conservação dos recursos naturais em destaque. CropLife. Disponível em: https://croplifebrasil.org/conceitos/agricultura-regenerativa/. Acesso em: 02 jun. 2024.

    Pulleman MM; Rahn E; Valle JF. 2023. Regenerative agriculture for low-carbon and resilient coffee farms: A practical guidebook. Version 1.0. International Center for Tropical Agriculture (CIAT). Cali, Colombia. 181 p. Disponível em: https://hdl.handle.net/10568/131997. Acesso em: 02 jun. 2024.

    Raising the bar – regerative agriculture for more resilient agro-ecosystems. Rainforest Alliance. 2020. Disponível em: https://www.rainforest-alliance.org/resource-item/raising-the-bar-regenerative-agriculture-for-more-resilient-agro-ecosystems-white-paper/. Acesso em: 02 jun. 2024.

    RODALE, Robert. Breaking new ground: the search for a sustainable agriculture. Futurist. Califórnia, p. 15-20. fev. 1983.

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