DC News https://agenciadcnews.com.br Thu, 25 Dec 2025 15:49:49 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.4.3 ESPECIAL Comércio Histórico. Há quase um século, Auto Posto Alto da Aclimação mantém relevância na cidade dos carros https://agenciadcnews.com.br/especial-comercio-historico-ha-quase-um-seculo-auto-posto-alto-da-aclimacao-quer-se-manter-relevante-na-cidade-dos-carros/ https://agenciadcnews.com.br/especial-comercio-historico-ha-quase-um-seculo-auto-posto-alto-da-aclimacao-quer-se-manter-relevante-na-cidade-dos-carros/#respond Thu, 25 Dec 2025 15:00:00 +0000 https://agenciadcnews.com.br/?p=112211 Continuar lendo ESPECIAL Comércio Histórico. Há quase um século, Auto Posto Alto da Aclimação mantém relevância na cidade dos carros]]> [AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Fundado em 1929, quando o automóvel ainda era exceção no Brasil e São Paulo começava a se adaptar à circulação de veículos motorizados, o Auto Posto Alto da Aclimação, conhecido historicamente como Posto Dansa, iniciava sua operação. No atravessar das décadas o espaço se manteve visualmente intacto, resultando em 2017, no tombamento do prédio pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), do Estado de São Paulo. Conforme o órgão, o espaço é um dos poucos remanescentes dos primeiros modelos implantados na capital paulista por empresas estrangeiras durante as décadas de 1920 e 1930. Algo “bárbaro” na visão da atual proprietária, Milena Villaverde. Eliezer Cavallini, marido e sócio, soma ao coro: “É uma história viva. Isso é legal, as pessoas vêm aqui e falam da relação delas com o posto”. Carregado de histórias que vão das memórias dos consumidores à edificação tombada e centenária, o espaço recebe da AGÊNCIA DC NEWS o prêmio Comércio Histórico – Estabelecimentos Tradicionais de São Paulo, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

Se a tradição e as memórias ajudam a tornar o espaço referência na região da Aclimação, foi a adaptação aos novos tempos e inserção de serviços complementares ao abastecimento de veículos automotores que garantiram aos atuais sócios a manutenção da viabilidade financeira do negócio. E esse exercício é contínuo. O mais novo serviço é o lava-rápido, que começou as operações no início de dezembro. De acordo com Milena, a ideia foi aproveitar um espaço que até então era “considerado morto” da entrada do posto. Ela explica que optaram pelo lava-rápido pelo fato de o negócio não comportar serviços como de troca de óleo, que exige uma estrutura específica e maior qualificação. “Agora, o lava-rápido é água de reuso, de captação”, disse. “Então, acaba sendo uma coisa mais tranquila de se fazer para atender os próprios clientes.”

A empresária, que trabalha no ramo de postos de combustíveis desde 2012, enfrenta no posto Aclimação, antigo posto Dansa, um desafio adicional: por ser um prédio tombado, todas as alterações, ampliações e reformas são reguladas pelo município de São Paulo, inibindo mudanças que possam descaracterizar o local. Para “compensar as limitações físicas do tombamento” a solução foi ampliar a oferta de produtos, com a venda de sorvetes e bebidas, itens que aumentam o tíquete médio do negócio e levam novos visitantes. São as saídas viáveis para um local que nasceu quando o Brasil somava pouco mais de 105 mil veículos automotores registrados, segundo o IBGE. Hoje, apenas na cidade de São Paulo há 9,9 milhões de veículos para 11,9 milhões de pessoas.

Assimilar as alternativas diante do tombamento não foi fácil, nem rápido. Quando o casal adquiriu a empresa, em 2015, nem sequer imaginava a possibilidade de o edifício ser tombado. Eliezer reforça o choque da época. “Recebemos uma carta do Condephaat, do nada”, afirmou. A notificação formal do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) veio dois anos depois, em 2017, em um momento em que casal planejava realizar reformas no edifício. O grau de tombamento do posto foi total, o que implica na impossibilidade de expandir a área construída ou fazer modificações na estrutura. Devido ao status quase centenário do local, frequentemente são necessárias restaurações – mas, segundo Eliezer, sem qualquer isenção ou benefício fiscal. “Fica uma sensação de injustiça”, disse. De acordo com ele, os gastos com pintura e esgoto podem chegar a R$ 15 mil e R$ 10 mil, respectivamente. O casal desembolsa todo ano R$ 22 mil de IPTU. “Temos zero incentivo para manter o posto funcionando.”

A estrutura pode ser original, mas o negócio de dez colaboradores opera com licenças e normas técnicas atualizadas. “As pessoas perguntam se as bombas de combustível são daquela época”, afirmou Eliezer. “Não teria nem como, colocaria todo mundo aqui e em volta em risco.” O fluxo de clientes é intenso, mas o casal nunca pensou em quantificá-lo. “Mas aqui é muito bom de tíquete médio”, disse o empresário. Em média, cada consumidor deixa R$ 150 ao abastecer. O valor é puxado pelo consumo do etanol, que segue como carro-chefe da casa. Milena diz que o Auto Posto Alto da Aclimação recebe clientes de todo tipo, mas há um público fiel. “Tem quem vem aqui desde a infância porque vinha com os pais. É muito bonito”, afirmou.

Apesar de apreciadores da região, o casal se queixa da segurança no entorno do posto, localizado na esquina da avenida Aclimação com a rua Pais de Andrade. Eliezer explica que a necessidade de o posto de funcionar 24 horas surgiu após casos de furto e vandalismo. “Fechamos à noite e voltamos de manhã e roubaram as placas, as tampas de aço do chão…” Ele afirma já ter ocorrido de a equipe presente no estabelecimento ser abordada em tentativas de assalto, o que culminou na contratação de um segurança. Para ele, o funcionamento de domingo a domingo é a única alternativa.

Com tanto movimento e história, hoje, o local também é visado como cenário para gravações e sessões fotográficas, mas com a rotina 24 horas por sete dias da semana, a negociação fica difícil. Milena disse que certa vez uma marca de bolsas tentou usar o espaço durante o fim de semana para as fotos de uma campanha de marketing. A sessão não ocorreu. “Pedimos o equivalente do faturamento do fim de semana e disseram que ultrapassava o orçamento deles”, afirmou. “Não chegamos a descobrir qual era a marca, mas era alto padrão.” Segundo Eliezer, o mesmo ocorreu com uma fintech de soluções financeiras que pretendia usar o espaço durante um dia para uma gravação. “Consideramos fechar para eles”, disse o empresário. “Mas queriam nos pagar R$ 2 mil. Não tem nem como.”

SUCESSÃO – Aos 53 anos, Milena diz que a empresa não seguirá para a segunda geração. A filha do casal, de 24, nunca cogitou tocar o empreendimento ou o outro posto de combustível que o casal. “Ela foi para outro campo, foi estudar medicina veterinária”, afirmou. Milena resume: “Para cuidar de um negócio como esse, tem que gostar e sentir prazer”. O marido, de 48, atesta a afirmação. O avô de Eliezer teve uma garagem com posto de gasolina na rua São Caetano, o que encantou o então rapaz. “Gostei muito. Gostei e aprendi só isso”, disse ele. “Trabalho com isso há 30 anos.”

Mesmo assim, a empresária não desiste da paixão pelo segmento. Milena antecipa que comprou outro posto com o marido, agora na Rodovia Ayrton Senna, antiga Rodovia dos Trabalhadores e Radial Leste. “Não tenho a pretensão de parar, mas também não espero que alguém queira seguir nos meus moldes”, disse. Ela não exclui a eventual venda do Auto Posto da Aclimação, dado os gastos e a falta de incentivo, mas a felicidade e ânimo que o negócio traz ainda superam o lado negativo. Responsável por um negócio próximo do centenário, o casal não tem planos de parar – talvez em um posto de gasolina, mas de seguir viagem.

PASSADO HISTÓRICO – A história do ponto acompanha o cresciemento do Brasil. Inaugurado anterior à criação da Petrobras, quando o Brasil dependia quase integralmente de combustíveis importados e a distribuição de derivados era dominada por empresas estrangeiras. Nos anos 1920, companhias como a Anglo-Mexican Petroleum Company Limited (braço da atual Shell no país) passaram a estruturar os primeiros pontos fixos de abastecimento nas cidades brasileiras, substituindo a venda de combustível em tambores e carroças por estações permanentes. A inovação era uma tendêncial internacional. Foi nesse contexto de modernização incipiente da mobilidade urbana que o posto da Aclimação entrou em operação, em 1929, como parte de uma infraestrutura ainda rara, voltada a um automóvel que começava a se inserir no cotidiano das grandes cidades.

Ao longo das décadas seguintes, a frota brasileira cresceria rápido. Em novembro deste ano, eram 128,6 milhões de veículos de todos os tipos (dos leves aos pesados, além de motocicletas). O município de São Paulo não apenas acompanhou o movimento, como o liderou e se urbanizou em torno do carro – enquanto a cidade representa 5,6% (11,9 milhões de habitantes) do total da população brasileira (213,4 milhões), a frota inscrita na capital paulista (9,9 milhões) equivale a 7,7% do total do país. E o posto da Aclimação permaneceu no mesmo endereço acompanhando tudo. A edificação preserva características arquitetônicas raras entre os remanescentes desse tipo de infraestrutura: sua linguagem neocolonial hispano-americana, comum nos postos construídos pelas grandes petrolíferas na época, manifestava-se em frontões arredondados, colunas largas e elementos decorativos que remetiam aos modelos trazidos do México e dos Estados Unidos, além de um painel de azulejos no topo da fachada com a concha e a inscrição da Anglo Mexican Petroleum Company Limited, nome original da Shell no Brasil. Essa combinação entre permanência física, linguagem arquitetônica e função urbana contínua ajuda a explicar por que o imóvel atravessou a modernização da cidade sem perder sua identidade – e por que, décadas depois, foi reconhecido como patrimônio histórico que é.

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[DC NEWS TALKS #93] Gugelmin, CFO da Condor: “Estamos perto de bater R$ 1 bi de faturamento” https://agenciadcnews.com.br/93-dc-news-talks-gugelmin-cfo-da-condor-estamos-perto-de-bater-r-1-bi-de-faturamento/ https://agenciadcnews.com.br/93-dc-news-talks-gugelmin-cfo-da-condor-estamos-perto-de-bater-r-1-bi-de-faturamento/#respond Thu, 25 Dec 2025 10:00:00 +0000 https://agenciadcnews.com.br/?p=111882 Continuar lendo [DC NEWS TALKS #93] Gugelmin, CFO da Condor: “Estamos perto de bater R$ 1 bi de faturamento”]]> [AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Fundada em 1929 na cidade de São Bento do Sul (SC), a Condor está a poucos passos de mudar de patamar, disse o CFO da companhia, Gilson Gugelmin em entrevista ao DC NEWS TALKS, o videocast da Agência DC NEWS. “Estamos perto de bater R$ 1 bilhão de faturamento.” Com o passar de quase um século, a empresa catarinense que começou produzindo escovas dentais, atualmente possui mais de 3 mil SKUs nos segmentos de limpeza, higiene, beleza e ferramentas de pintura, presentes em mais de 300 mil pontos de venda no Brasil e em mais 20 países para onde exporta.

Construiu uma das maiores fábricas de escovas da América Latina, com 70 mil metros quadrados de área. “Entre 2019 e 2024, a companhia cresceu 113%, sendo 13% no ano passado e um faturamento de R$ 890 milhões.” Esse crescimento é fruto de um plano estruturado para resultados a longo prazo, segundo o CFO. “Temos muito claro o caminho, nosso planejamento e a garantia da execução.” Em 2026, o plano é revisitar o que foi feito e investir em inteligência de mercado, sustentabilidade e inovação para dobrar de tamanho até 2030.

Segundo o executivo, não foi um evento isolado que impulsionou o crescimento da Condor mas um conjunto de fatores. “Nos ancoramos em saúde financeira, que dá suporte para esse crescimento. O principal é a eficiência operacional”, disse.
O objetivo final deste planejamento é produzir de forma consistente para o consumidor e gerar valor. No segundo trimestre de 2025, por exemplo, a empresa lançou a primeira esponja biodegradável do Brasil, mas já nos anos 1950 parte da produção era feita com produtos reciclados. “Buscamos caminhos diferentes”, disse. “Depois essa cultura de sustentabilidade se ampliou para todos os negócios.”

O uso de inteligência de mercado, colocado como outro ponto forte da companhia, segundo o CFO, guia a Condor para tomada de decisão de lançamentos. Dessa forma, o desenvolvimento de produtos não empurra produtos na gôndola, mas atende reais demandas e necessidades do consumidor. A empresa cruza dados internos de diferentes segmentos, como farma e supermercados. “A inteligência é uma área que investimos muito nos últimos anos”, afirmou. A busca por inovação também guiou a entrada da Condor na sustentabilidade 70 anos atrás, bem antes de ESG se tornar um fator nas escolhas de consumo.

A Condor lançou em 2025 um programa para aceleração de statups, o Inova Condor. Segundo Gilson Gugelmin, cada área tinha seu programa de inovação, até a empresa entender que faria sentido levantar um setor focado apenas nisso, mas que continuasse atuando de forma transversal. “Esse time não olha só para produto. A inovação está em tudo, processo, serviços, operacional”, afirmou o executivo. “É necessário que uma empresa que fabrica produtos de consumo enxergue oportunidades também para eficiência operacional”, disse. O Inova Condor está no desenvolvimento de produtos até nos recursos humanos, “em diferentes verticais”. A cada rodada, 20 startups são selecionadas para trabalhar dentro da empresa. Confira a entrevista. 

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[VÍDEO] Rua 25 de Março faz 160 anos e inteligência artificial recria em vídeo sua história https://agenciadcnews.com.br/video-rua-25-de-marco-faz-160-anos-e-inteligencia-artificial-recria-em-video-sua-historia/ https://agenciadcnews.com.br/video-rua-25-de-marco-faz-160-anos-e-inteligencia-artificial-recria-em-video-sua-historia/#respond Wed, 24 Dec 2025 14:03:37 +0000 https://agenciadcnews.com.br/?p=113683 Continuar lendo [VÍDEO] Rua 25 de Março faz 160 anos e inteligência artificial recria em vídeo sua história]]> [AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Adjetivo e sinônimo de comércio popular, a Rua 25 de Março completou 160 anos. E, como convém a um lugar tão emblemático para pessoas de todo o país, carrega trajetória sem igual no universo varejista – retratada em uma série de 20 reportagens produzidas pela AGÊNCIA DC NEWS. Oficialmente, foi batizada em 28 de novembro de 1865, recebendo o nome da data da primeira Constituição do Brasil (de 1824). Hoje, recebe 200 mil pessoas por dia, número que quadruplica em vésperas de datas festivas. Seu impacto é tanto que ela compreende uma área de 17 ruas, com 3,8 mil lojas (1,1 mil apenas na 25, como é chamada) e 30 mil empregos diretos. Para contar essa jornada, de uma região que sofria com enchentes e se tornou polo comercial atravessando séculos, recorremos ao vídeo feito com inteligência artificial (IA) que ilustra esta reportagem.   

Mas antes de se tornar esta ‘cidade comercial’ que recebe até 800 mil pessoas num dia de pico, a história leva ao início do século 19. E navega pelo rio Tamanduateí, que corria nas beiras por onde hoje está a 25 de Março. Ali ficava o Porto de São Bento, que depois seria conhecido como Porto Geral – de onde se origina a ladeira que ‘deságua’ na 25. Ali estava também o Beco das Sete Voltas, assim chamado por margear o traçado tortuoso do Tamanduateí. Devido às enchentes rotineiras, em meados do século 19 o leito do rio sofreu alterações. Logo depois, em 1859, a Câmara decidiu oficializar a criação de uma ‘praça de mercado’ naquela área, na região onde ficava a Ponte do Carmo (um paredão erguido na área da atual avenida Rangel Pestana, que ligava o Centro ao Brás) e o Porto de São Bento.

Os construtores que se apresentassem deveriam seguir uma série de recomendações, inclusive com aterro do terreno onde seria erguido o mercado, para evitar alagamentos. Ali foi aberta a rua de Baixo, embrião da 25. O primeiro mercado municipal paulistano foi aberto em 1867, dois anos depois da oficialização da via como 25 de Março. Ele ficava entre a 25 e a rua General Carneiro, a ladeira que vai dar no atual Parque Dom Pedro II. Era chamado de Mercado Grande, Mercado Caipira ou ainda Mercado dos Caipiras.

Durante décadas, foi motivo de debates pela falta de estrutura do local. Em 1898, um anônimo reivindicava, nas páginas de jornal, um “edifício apropriado, com o necessário abrigo, para o Mercado dos Caipiras”. Quase duas décadas depois, em abril de 1916, por exemplo, a Câmara pedia à prefeitura “orçar e executar algum melhoramento”. O argumento: “A nossa capital é frequentada por forasteiros e a primeira visita, em geral, é aos mercados”. Mas a mudança demorou. O Mercadão atual, como é conhecido, foi inaugurado em 25 de janeiro de 1933, na paralela rua da Cantareira, a um quilômetro do Pátio do Colégio.

COLINA – São Paulo e o comércio são na verdade a mesma história. E se a cidade se fez gigante, foi por esse empreendedorismo sempre pioneiro. A cidade se instalou, originalmente, entre a Várzea do Carmo e o Vale do Anhangabaú. No meio deles, a colina onde foi erguido o Pátio do Colégio. Na parte baixa, à beira do Tamanduateí, desvalorizada por causa das inundações, começaram a se instalar os primeiros comerciantes, que o professor e pesquisador Lineu Francisco de Oliveira chamou de mascates.

E uma comunidade em particular se destacava, a de imigrantes sírios e libaneses, saídos no fim do século 19 do então decadente Império Otomano. Em 1904, esses imigrantes já haviam erguido a primeira igreja ortodoxa no Brasil, a Paróquia Ortodoxa Antioquina da Anunciação, conhecida como Igreja de Nossa Senhora, na antiga rua Itobi, atual rua Cavalheiro Basílio Jafet. Um dos primeiros registros de estabelecimentos na 25 foi da Nami Jafet e Irmãos – Benjamin, Basílio e João já estavam no Brasil, enquanto Nami chegou em 1893, quando a família abriu a loja na 25 de Março. O empreendimento daria origem à Fiação, Tecelagem e Estamparia Ypiranga Jafet, fábrica aberta em 1907 no bairro do Ipiranga.

Jafet tornou-se sinônimo de atividade industrial e comercial. A família também foi uma das principais doadoras para a construção da igreja ortodoxa. Mas há pelo menos um registro de estabelecimento anterior (1883): a Casa Alemã, que “nasceu no 2º andar de uma velha casa amarela de taipa, na rua 25 de Março”, segundo anúncio publicado em 1941 que falava de suas origens e se apresentava como parte do “patrimônio moral paulista”. Por lá se vendia artigos de porcelana, cerâmica, roupa de cama, lingerie, bijuterias, artigos para vestuário. No ano seguinte a empresa, publicou outro anúncio, no Correio Paulistano, mais emotivo: “No provinciano São Paulo desses dias [referindo-se a 1883], é a rua 25 de Março o centro preferido dos comerciantes emigrados de todas as pátrias”.

Era a rua do comércio estrangeiro. “Há aí uma casa que o povo chama armênia, outra portuguesa, outra alemã, porque armênio, português, alemão são seus donos”, afirmou ainda a Casa Alemã, que a essa altura estava instalada na rua Direita. Mas o Brasil entrou na Segunda Guerra e os estabelecimentos que tivessem no nome Alemanha, Itália ou Japão precisaram alterar suas marcas. A Casa Alemã tornou-se Galeria Paulista de Modas, que se manteve na ativa até 1959. O brasilianista Warren Dean (1932-1994) destaca dois elementos centrais desse período no livro A Industrialização de São Paulo (1969): os imigrantes comerciantes de um lado, e uma população pautada pelo consumo de outro. Segundo Dean, no início do século 20 “o negócio das importações atingira o zênite”, o auge. Nas “lojas apinhadas dos sírios, que comerciavam com fazendas na Rua 25 de Março”, ou nas lojas de luxo da São Bento, o paulista comprava de tudo: “Todos os produtos da Europa e dos Estados Unidos, desde o mais básico até o mais supérfluo”.

REVOLUÇÃO E SAQUES – A São Paulo do fim da primeira metade do século passado havia crescido de forma vertiginosa. Em 1890, segundo o Censo, a cidade tinha 65 mil habitantes. Dez anos depois, já eram 240 mil. No início da década de 1920, quase 600 mil – 205 mil estrangeiros, 35% do total. E seriam 1,3 milhão em 1940. Ou seja, num prazo de cinco décadas a população multiplicara por 20. A essa altura, a 25 de Março já possuía pelo menos 500 lojas, majoritariamente abertas pelos sírios e libaneses. E a região já carregava também suas cicatrizes. Além das enchentes dos primórdios, a 25 de Março também sofreu as consequências dos ataques contra São Paulo, bombardeada pelo governo federal durante quase todo o mês de julho de 1924, na chamada Revolução de 1924 ou Revolta Paulista – movimento de origem militar que provocou forte impacto civil e pretendia derrubar o então presidente Artur Bernardes.

Segundo o historiador Moacir Assunção, deixou 503 mortos, quase 5 mil feridos e 250 mil em busca de refúgio. O desabastecimento provocou saques em busca de alimentos, como no dia 9 de julho: “Começam os saques em armazéns da Mooca e do Bom Retiro e o Mercadinho da rua 25 de Março é incendiado”. Após o fim da revolta, a prefeitura informou que 103 estabelecimentos comerciais e industriais sofreram saques, bombardeios, incêndios e roubos. A lista incluía o Mercado Municipal de Aves e a Oficina Duprat, na 25. A Associação Comercial de São Paulo (ACSP) fez pelos jornais um apelo por solidariedade, pedindo “aos habitantes desta generosa cidade que recebam em suas casas, na medida de suas forças, as mulheres, velhos e crianças desamparados”. O texto é assinado pelo então presidente da ACSP, José Carlos de Macedo Soares.

Na época da revolta, os comerciantes ainda moravam com suas famílias na parte de cima dos estabelecimentos. Apenas a partir dos anos 1930 eles começariam a se deslocar para outras regiões, como os bairros de Vila Mariana e Paraíso, e o piso superior se tornaria depósito. De acordo com livro publicado por Rose Kuraicho sobre as memórias da chamada “rua dos árabes”, nesse período a 25 de Março tinha três regiões definidas. Uma ficava mais próxima à praça da Sé, onde se vendiam galinhas. Na esquina da General Carneiro com a 25, estavam os primeiros atacadistas de tecidos. No sentido do Anhangabaú, “pequenas lojas de armações e panos para cortinas”.

Busca em anúncios nos jornais, em meados dos anos 1940, mostra predominância de indústrias e lojas de tecidos ao longo da 25 de Março. Basta ver a sequência: Irmãos Camerini (número 324), Mercantil de Tecidos (449), Salvador Hannud & Filho Rendas e Armarinhos (501), Michel Chohfi (555), Assad Abdalla (591), Fiação Campinas (607), Gasparian (também 607), A Nova Aliança de Tecidos (614), Afez Chohfi (661), Sedadada (673), Sedas Luiz XV (687), Lotaif (693), Nemer Haddad (785), Waldomiro Bussab (816), Tecidos L.G. Toledo (830), Paulista (853), Matuck (858), Zacharias (1.012), São Sebastião (1.085), Pereira Sobrinho (1.091), Companhia Comercial de Tecidos (1.212) e Tecidos Kalil (1.260).

BONDES – A região já havia se tornado um espaço frenético. Uma notícia recorrente nos jornais dos anos 1930 a 1950 era sobre acidentes – atropelamentos, batidas e quedas – com bondes, muitos ocorridos no entorno da 25. A última linha de bondes da cidade deixou de circular em março de 1968. A atual administração municipal tem um projeto denominado Bonde São Paulo, que prevê circulação de veículos leve sobre trilhos (VLTs) na região central, com capacidade para atender 130 mil pessoas por dia. Segundo a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL), estão previstas duas linhas, com 12 quilômetros de extensão. Deve conectar “bairros estratégicos, como Bom Retiro e Brás, facilitando o acesso a importantes pontos culturais e econômicos”. O que inclui a rua 25 de Março.

A 25 de Março atravessou fases em relação aos produtos ali comercializados. Foi de centro atacadista, marcadamente têxtil, até a década de 1950, para um varejo mais diversificado, que se adapta às datas comemorativas. Dos tecidos e armarinhos iniciais para as bijuterias e dali para os eletroeletrônicos (que virariam marca da Santa Ifigênia). O que coincide com a chegada dos chineses à região. Neste 2025, inclusive, foi realizada a terceira edição do Festival da Lua. A 25, como microuniverso paulistano, passou por enchentes, bombardeios, guerras, levas migratórias, viu chegar os shopping centers – a partir dos anos 1960 –, testemunhou a expansão da cidade para os bairros, sentiu a deterioração do Centro e as iniciativas do poder público para sua revitalização, a criação do comércio eletrônico, a inflação e as oscilações do câmbio. E continuou sendo um centro de peregrinação de compras.

Também não poderia ficar de fora do radar de Adoniran Barbosa, o compositor por excelência das coisas de São Paulo. A 25 é citada em Bazares, composição de Adoniran e Evandro do Bandolim – cujo refrão é “Mais um aqui pro fregueis, / Divinha que tem na mão / Aqui caro sai barato / E tem até prestação.” Foi gravada pela primeira vez em 2000 pelo cantor Passoca, em álbum que reuniu inéditas de Adoniran. É uma ode ao comércio paulistano, que tem a 25 como seu berço. João Rubinato, nome verdadeiro de Adoniran, por sinal, trabalhou ali. Como vendedor e entregador, nos anos 1930. ‘Vou à 25’ é uma expressão que identifica uma região e resume um histórico hábito do morador da capital paulista que se espalhou pelo Brasil e outros países. Afinal, a 25 de Março é o local onde “tem de tudo”. Como São Paulo.

É para narrar essa trajetória que usamos a inteligência artificial, e com IA tentar resumir a jornada de 160 anos da 25 em vídeo feito a partir de muita pesquisa, imagens históricas e outras recriadas. A seguir a entrevista com Claudio Pucci, fundador da PuccIA, a agência responsável pelo vídeo.

Claudio Pucci: “Uso IA para dar vida à minha criatividade e ao que o cliente precisa”
(Reprodução LinkedIn)

 

AGÊNCIA DC NEWS – Há quanto tempo você trabalha com geração de imagens por ferramentas de inteligência artificial?
CLAUDIO PUCCI –
Faz quase três anos. Comecei porque gosto de fotografia, gosto de arte, gosto de quadrinhos, e comecei a brincar com isso. Desde as ferramentas mais simples de dois, três anos atrás, que faziam pessoas com pele plástica, até chegar no apuro que existe hoje. Você consegue porosidade e tudo mais.

AGÊNCIA DC NEWS – Que tipo de criação?
CLAUDIO PUCCI –
Eu criei personagens para Instagram, personagens para cliente… Uso a inteligência artificial para dar vida à minha criatividade e ao que o cliente precisa.

AGÊNCIA DC NEWS – Como foi o projeto dos 160 anos da Rua 25 de Março?
CLAUDIO PUCCI –
Quando fui procurado para essa história da 25 de Março, foi uma forma de unir duas coisas que amo de paixão: a inteligência artificial com a história, especialmente a história da cidade em que moro.

AGÊNCIA DC NEWS – E o desenvolvimento se deu de que maneira?
CLAUDIO PUCCI –
O que a gente consensou? Animar fotos antigas, dar vida para fotos antigas e contar a história da 25 de Março através disso. Combinamos não colorizar as fotos, deixar em preto e branco. Até para ter esse caráter histórico. Aí, para animar essas fotos, usei dois programas que estão disponíveis na internet.

AGÊNCIA DC NEWS – Quais?
CLAUDIO PUCCI –
Um é o Kling, um clássico que está sempre se inovando para fazer imagens e fazer animações muito corretas, muito profundas. E o outro é o SeaArt, site chinês que acaba sendo um hub de criadores e também tem ferramentas de vídeo para IA muito boas.

AGÊNCIA DC NEWS – Qual a maior dificuldade?
CLAUDIO PUCCI –
Fazer com que a IA faça aquilo que você pediu no prompt.

AGÊNCIA DC NEWS – O que acontece?
CLAUDIO PUCCI –
A inteligência artificial vai fazer animação, mas ela tem alguns limites. Por exemplo, quanto mais detalhes você quer animados na imagem, mais vai dar chance de erro, ou de gente borrada, ou de coisas surreais, como pessoas atravessando outras pessoas. Então, quanto menos elementos você tem o resultado é muito melhor. Mas algumas imagens que a gente fez traziam muitos elementos.

AGÊNCIA DC NEWS – Como você resolveu?
CLAUDIO PUCCI –
Tentei pegar imagens que fossem a distância, até para não ficar tão latente essas pequenas dificuldades que aparecem.

AGÊNCIA DC NEWS – Houve outros problemas?
CLAUDIO PUCCI –
Outra dificuldade, que também foi resolvida por Iá, é criar situações. Eu não tinha fotos de lojas da 25 de Março de 1910. Então eu peguei fotos de 1910, peguei fotos da 25 de Março e fiz a IA criar interiores de loja. E a partir disso eu animei essas lojas.

AGÊNCIA DC NEWS – Por exemplo…
CLAUDIO PUCCI –
A sequência final, onde aparecem os vendedores se despedindo, desde 1890 até 1980, foi feita assim. Eu fui pedindo fotos, coloquei fotos de referência de lojas para que eles criassem o material que eu quisesse para poder animar. Para criar as fotos e depois animar, eu utilizei o Freepeek Picasso, que é um programa que já uso há anos. Freepik era um site onde você assinava e podia baixar imagens, baixar PSDs para Photoshop… Aí eles acabaram caindo de cabeça com a parte de inteligência artificial. E é muito bom, muito fácil de usar e dá resultados excelentes.

AGÊNCIA DC NEWS – E a parte sonora?
CLAUDIO PUCCI –
O melhor site hoje de IA para narração é o ElevenLabs. Tem uma série de vozes já programadas, que você pode usar, e também permite que você crie a sua.

AGÊNCIA DC NEWS – No caso do Projeto 25 de Março em IA foi feito como?
CLAUDIO PUCCI –
A gente quis achar uma voz que fosse simpática, que fosse calorosa, que fosse gostosa de ouvir, que não ficasse monótona. E acho que funcionou muito bem.

AGÊNCIA DC NEWS – E a trilha sonora?
CLAUDIO PUCCI –
A parte musical, que estou descobrindo mais agora, aprendendo a usar o programa, que se chama Suno. Você cria uma música através de um prompt.

AGÊNCIA DC NEWS – De que maneira?
CLAUDIO PUCCI –
Você faz o comando dizendo a estrutura da música que você quer, que ritmo, que instrumentos, qual é o tema, se você quer algum refrão… E ele cria a música pra você. No caso da história da 25, nada seria mais apropriado saudoso e gostoso e bonito do que um chorinho. Então eu criei quatro a seis músicas e escolhi a que mais encantou meu coração e que mais fez o vídeo rodar, que é essa Velhos Lampiões.

AGÊNCIA DC NEWS – O título da música é seu?
CLAUDIO PUCCI –
Foi uma sugestão do Suno. Como achei o nome muito bonito, deixei.

AGÊNCIA DC NEWS – Um caminho criativo, mas ainda difícil, não?
CLAUDIO PUCCI –
Teve muita coisa errada? Meu Deus do céu! Sim, teve muita coisa errada. Teve imagem em que precisei gerar umas dez vezes até chegar naquilo que queria, teve vídeos que ficaram muito engraçados porque não tinham nada a ver com o que pedi. Coisas do tipo eu pedir para a mulher acenar para a câmera e a mulher se descabelar. Mexer com IA é mexer também com a sua paciência. Ter paciência e entender por que aquele comando não foi entendido pela IA.

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NOTA OFICIAL: ACSP entra com mandado em defesa da micro e pequena empresa e da isenção de IR sobre dividendos https://agenciadcnews.com.br/nota-oficial-acsp-entra-com-mandado-em-defesa-da-micro-e-pequena-empresa-e-da-isencao-de-ir-sobre-dividendos/ https://agenciadcnews.com.br/nota-oficial-acsp-entra-com-mandado-em-defesa-da-micro-e-pequena-empresa-e-da-isencao-de-ir-sobre-dividendos/#respond Wed, 24 Dec 2025 01:28:53 +0000 https://agenciadcnews.com.br/?p=113734 Continuar lendo NOTA OFICIAL: ACSP entra com mandado em defesa da micro e pequena empresa e da isenção de IR sobre dividendos]]> [AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS].
A Associação Comercial de São Paulo (ACSP) ingressou na terça-feira (23) com mandado de segurança na Justiça Federal para defender de forma direta e contundente o direito das micro e pequenas empresas à isenção do Imposto de Renda sobre a distribuição de dividendos relativos aos resultados apurados em 2025.

A iniciativa é uma resposta aos efeitos da Lei no 15.270, de 26 de novembro de 2025, que alterou as regras do Imposto de Renda e estabeleceu a tributação de lucros e dividendos a partir de 2026. Embora a legislação preveja regras de transição e preserve a isenção para resultados apurados até o fim de 2025, o curto prazo e as exigências formais impostas para o encerramento do exercício colocam em risco, na prática, o direito de milhares de pequenos empresários.

Para a ACSP, não é aceitável que micro e pequenas empresas – especialmente as enquadradas no Simples Nacional – sejam penalizadas por entraves operacionais e burocráticos, como a exigência de fechamento de balanço e registro de atas em prazos incompatíveis com a realidade desses negócios.

O mandado de segurança apresentado à Justiça Federal, foro competente para analisar matérias relacionadas a tributos federais, tem como foco impedir que interpretações restritivas e exigências formais esvaziem um direito assegurado pela legislação.

Segundo o presidente da ACSP, Roberto Mateus Ordine, a entidade atua para proteger quem sustenta a economia. “A Associação Comercial de São Paulo está agindo de forma firme na defesa da micro e da pequena empresa”, afirmou. Segundo Ordine, a lei garante a isenção do Imposto de Renda sobre os dividendos relativos aos resultados apurados até 2025. “E não vamos aceitar que prazos exíguos e exigências burocráticas retirem esse direito na prática.” Para ele, o mandado de segurança é uma medida necessária para garantir segurança e previsibilidade aos empreendedores.

O processo será público e poderá ser acompanhado (5039099-26.2025.4.03.6100). A ACSP reforça que seguirá atuando de maneira incisiva para proteger o ambiente de negócios e impedir que mudanças tributárias e interpretações administrativas prejudiquem especialmente os pequenos empreendedores, responsáveis pela geração de emprego e renda no país.

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ESPECIAL Comércio Histórico. Restaurante Piassi, aos 70 anos, conta a história da família e do bairro de São Miguel Paulista https://agenciadcnews.com.br/especial-comercio-historico-restaurante-piassi-aos-70-anos-conta-a-historia-da-familia-e-do-bairro-de-sao-miguel-paulista/ https://agenciadcnews.com.br/especial-comercio-historico-restaurante-piassi-aos-70-anos-conta-a-historia-da-familia-e-do-bairro-de-sao-miguel-paulista/#respond Tue, 23 Dec 2025 20:45:00 +0000 https://agenciadcnews.com.br/?p=112799 Continuar lendo ESPECIAL Comércio Histórico. Restaurante Piassi, aos 70 anos, conta a história da família e do bairro de São Miguel Paulista]]> [AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
São Miguel Paulista se apresenta a partir da Capela de São Miguel Arcanjo, erguida pelo padre José de Anchieta em 1560, quando a cidade de São Paulo tinha apenas 6 anos. Fica na praça Padre Aleixo Monteiro Mafra, chamada de “praça do forró”, em referência à presença nordestina naquele bairro da Zona Leste paulistana. Foi um dos primeiros bens tombados pelo Patrimônio Histórico Nacional, em 1938. A 300 metros dali, um restaurante que começou servindo pratos-feitos a caminhoneiros, na beira da antiga Estrada Rio-Paulo, carrega a memória em suas paredes repletas de fotos. Painel que conta não apenas a história de um empreendimento familiar com 70 anos completados em 2025, mas do bairro e sua gente. Os Piassi, originalmente Piazzi, saíram da Itália e se espalharam: Argentina, Brasil, Estados Unidos. A saga é narrada no livro Piazzi&Piassi – Uma Família Ítálo-Brasileira, de Hermógenes Piassi (Edição do Autor). O primeiro tomo, de 2017, está em uma estante. Tem mais de mil páginas. A história, como se vê, é longa. Parte desses italianos (de Bolonha, Cremona, Trento e Verona) foi parar na região de Araraquara, interior paulista, incluindo a cidade de Boa Esperança, a 30 quilômetros, até vir para a capital. E a história do restaurante de São Miguel vai começar quando Pedro Piassi consegue dinheiro emprestado e abre seu barzinho, vendendo, ao lado de Luiza, refeições com tempero e sotaque interiorano para os motoristas que iam e vinham. O Restaurante Piassi é um dos empreendimentos do Prêmio Comércio Histórico 2025, criado pela AGÊNCIA DC NEWS e pela Associação Comercial de São Paulo.

Eram lanches, refeições básicas. Até que um cliente, o Oscar, funcionário da Caixa Econômica Federal, pediu amigavelmente mais pratos para o cardápio. Até um cozinheiro foi contratado temporariamente para aprender o repertório, que foi sendo ampliado e hoje é quase interminável. (São 40 funcionários e pelo menos 200 refeições por dia.) Oscarzinho, como era chamado, está lá na parede do salão térreo, em uma fotografia. Antônio Marcos, o cantor romântico, figura em outro quadro – ele é cria de São Miguel Paulista. O bairro abrigou outros artistas, como o cantor e compositor Edvaldo Santana, filho de nordestinos, e o músico alagoano Hermeto Pascoal, que morou com a família na Vila Mara. Uma das vizinhas, que brincava com os filhos do casal Hermeto e Ilza, era a futura cantora Roberta Miranda.

A região deu um salto quando a Companhia Nitro Química se instalou, a 1,5 quilômetro dos Piassi – a “multinacional brasileira”, como se apresenta, acaba de completar 90 anos. Elisa Piassi, da terceira geração, conta que até hoje um dos engenheiros da empresa, seu Nelson, já aposentado, aparece para almoçar e leva alguns dos atuais funcionários. Sim, a Nitro está na parede do restaurante. Uma das fotos ilustra a inauguração da arquibancada do estádio – sim, havia um estádio e um clube operário. A foto está lá: a inauguração foi simplesmente contra o Santos do jovem Pelé, em 1957 (ele havia começado a jogar no ano anterior). O chamado time da Vila (Belmiro), como era de hábito naquela época, goleou, mas o time da casa deixou sua marca: 10 a 3. Outro olhar remete à foto de uma cinema do filme Sangue em Santa Maria, de 1971, filmado no bairro. Em muitas fotos, o crédito é dado a Tijolinho. Mas quem é ele? Outro cliente, claro. Em São Miguel também foi fundada, em 1972, a Universidade Cruzeiro do Sul. Uma das fundadoras, Dagmar Figueiredo, às vezes aparece no Piassi.

Já no andar de cima, uma camisa do Palmeiras está emoldurada com a assinatura de Ademir da Guia, eterno ídolo alviverde, dos anos 1970. Ele também aparece em fotos com os donos. “Ele veio, o Alfredo [outro jogador daquele período]… A gente queria que o Marcão viesse”, afirmou Elisa, que espera pela visita do ídolo Marcos, ex-goleiro do Palmeiras e titular da seleção na Copa de 2002, a última vencida pelo Brasil. A idolatria pelo time de Parque Antártica (antigo nome do estádio, que após a reforma passou a se chamar Allianz Parque) não impede que se vejam alguns objetos do corintiano Ayrton Senna, ídolo de Marco, primo de Elisa, um dos quatro filhos, o mais velho, de seu Aurélio e Maria Conceição Piassi – eles são Marco (nascido em 1959), Ana Luiza (1961), Maria José (1965) e Eduardo (1973).

PAIS, FILHOS, IRMÃOS – Aurélio era filho de Pedro, que abriu o bar/restaurante. Aurélio e Maria casaram-se em maio de 1957 – na capelinha símbolo de São Miguel (uma das netas de dona Maria, Renata, também se casaria lá). Nascida em Boa Esperança e registrada em Araraquara, Maria, filha de lavradores, hoje com 87 anos, veio para São Paulo. Continua morando pertinho do restaurante, que visita regularmente. Pedro Piassi Filho, irmão de Aurélio, também teve quatro filhos, com Nilza Vassalo Piassi (casaram-se em 1958): Nilza (nascida em 1959), Elisa (1962), Pedro Piassi Neto (1968) e Lígia (1976). Assim, a família tem três Pedros (o que abriu o restaurante, o filho e o neto) e três Marias irmãs: Nilza Maria, Maria Elisa e Lígia Maria. Além da prima Maria José.

Aurélio e Pedro eram irmãos inseparáveis, nos negócios e na vida. “Eram muito unidos, se amavam muito”, disse Elisa. “Meu pai [Pedro Filho] cuidava mais da cozinha. Meu tio [Aurélio], mais da parte financeira.” Dedicaram-se ao restaurante até onde a saúde permitiu. Dona Maria e Elisa se emocionam ao lembrar. Aurélio, que morreu em 2006, aos 72 anos, passou os últimos 20 com Alzheimer. Continuava no trabalho até que Maria decidiu que não era mais possível continuar. Sua companheira conta que ele ficou “muito revoltado” com a doença e com a impossibilidade de prosseguir fazendo o que mais gostava. E Pedro, pai de Elisa, morreu em 2009, em consequência de um câncer, aos 88 anos. “Trabalhou até os 86.” Dona Nilza, mãe de Elisa, trabalhou até a véspera do nascimento da filha, na manhã de 8 de setembro de 1962.

As lembranças remetem a José Aldo Piassi, irmão de Aurélio e Pedro Filho. Ele está nas paredes, nas estantes e até na balança Filizola (a primeira marca brasileira, criada por um imigrante italiano) da Farmaluz, onde trabalhava. Zezinho, como sua sobrinha Elisa o chama, morreu em 1970, durante uma cirurgia de úlcera. Tinha 26 anos. “Ele ia se casar…”, recorda Elisa. A morte repentina abalou a família, que chegou a fechar o restaurante aos domingos. Mas seu Aurélio não conseguia ficar longe – tinha até crises de enxaqueca. A vida seguiu. Decreto municipal de 1977 deu o nome de José Aldo Piassi à rua que faz esquina com a avenida Marechal Tito (atual nome da antiga Rio-São Paulo), onde está o restaurante. Hoje, os clientes entram por essa rua, que homenageia Zezinho. A história dos Piassi transborda das paredes e estantes para as mesas.

Seis meses atrás, a família abriu um salão no andar de cima – parte do acabamento ainda está para ser concluída. Nos primeiros tempos, lembra dona Maria, o espaço todo não era nem metade daquele. Quem sobe a escada, antes de chegar a essa área, passará por um espaço que foi batizado de Sala da Família. Fotografias de várias épocas mostram os Piassi, crianças em volta de uma mesa farta, os pioneiros, até uma casinha no meio do nada em Boa Esperança. Onde parte deles morou. “Agora, só tem o pé de manga”, disse dona Maria, mostrando a árvore. “É também uma forma de recepcionar o cliente”, afirmou Elisa, sobre o salão. Ela ainda pequena corria pelo restaurante, onde passou a trabalhar em 1986. Formou-se em Pedagogia e Direito, mas sua vida também rumou para o empreendimento familiar. Como Pedro Neto (que, como Elisa, cuida mais da divulgação), Eduardo (financeiro) e Marco (administrativo), engenheiro aposentado pelo Metrô e responsável pelas reformas feitas no restaurante. Que lá atrás passou pelo dilema de aderir ou não à onda dos restaurantes self-service. A opção pelo quilo feita pelos empreendimentos vizinhos chegou a reduzir o movimento. “Nós mantivemos o à la carte.” Elisa chama o Piassi de “ponto de encontro”, onde sempre aparecem, há anos, moradores e funcionários de fábricas e escritórios próximos. Com segredos que vão além da cozinha e dos preços. “Sabe a segunda casa da pessoa? Tem que ter acolhimento.”

Uma questão ainda em aberto é sobre quem tocará o restaurante mais adiante. A atual geração, a quarta, está mergulhada nos estudos. Vários cursam Medicina – já tem até gente formada. Mas, aparentemente, isso ainda não preocupa os atuais Piassi. Dona Maria, por exemplo, tem 11 netos, de 10 a 42 anos, e 12 bisnetos, de 5 meses a 12 anos. Alguns deles podem levar a história adiante. Nas mesas, nas paredes e nas ruas de São Miguel, nas memórias de uma família e do bairro que a acolheu.

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Daniel Sakamoto, da CNDL dá dica para 2026: “Vender melhor é mais importante do que vender mais” https://agenciadcnews.com.br/daniel-sakamoto-da-cndl-da-dica-para-2026-vender-melhor-e-mais-importante-do-que-vender-mais/ Tue, 23 Dec 2025 13:08:42 +0000 https://agenciadcnews.com.br/?p=113111 Continuar lendo Daniel Sakamoto, da CNDL dá dica para 2026: “Vender melhor é mais importante do que vender mais”]]> [AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Depois de registrar, em 2024, o melhor desempenho do varejo brasileiro em 12 anos, o setor entrou em 2025 sob um novo regime econômico, marcado por desaceleração do consumo, juros elevados, crédito mais caro e recordes de inadimplência e endividamento das famílias. Dados do IBGE compilados pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) mostram que, no acumulado de janeiro a setembro de 2025, as vendas do comércio varejista cresceram 1,5%, ritmo bem inferior ao avanço de 4,1% observado ao longo de 2024, enquanto no varejo ampliado — que concentra atividades mais sensíveis ao crédito — houve recuo de 0,3% no acumulado do ano. Nesse cenário de “pé no freio”, a lógica de crescimento do varejo também mudou. “Se 2024 foi um ano de muito crescimento, 2025 é um ano de desaceleração e pouco crescimento”, afirma Daniel Keniti Sakamoto, gerente-executivo da CNDL, em entrevista à AGÊNCIA DC NEWS. Para ele, diante de um ambiente econômico mais restritivo e de transição para 2026, a dica para os varejistas é simples “A eficiência tem um peso muito maior do que o faturamento, em si”, disse, fazendo menção à eficiência operacional como principal critério de ajuste e estratégia para os lojistas.

O ambiente de restrição financeira foi agravado pela manutenção da taxa Selic em 15% ao ano, pela desaceleração das operações de crédito e pelo crescimento de 8,5% no número de consumidores negativados, que já somam 72,17 milhões de pessoas, ou 43,3% da população adulta, segundo dados da CNDL e do SPC Brasil. “Os juros altos representam crédito mais caro, tanto para o lojista quanto para o consumidor”, afirma o gerente-executivo da CNDL. Para os empresários, a elevação da taxa básica de juros se refletiu diretamente no custo do capital, que atingiu 20,7% ao ano em setembro de 2025, acima dos 17,5% registrados no mesmo mês de 2024, ao mesmo tempo em que o ritmo de expansão do crédito perdeu força, inclusive entre micro, pequenas e médias empresas. A inadimplência empresarial acompanhou esse movimento, avançando de 2,37% em setembro de 2024 para 2,48% em setembro de 2025, o que ampliou a pressão sobre o caixa das operações.

Mesmo em um cenário de juros elevados e restrição financeira, o mercado de trabalho do varejo manteve algum grau de resiliência ao longo de 2025, ainda que em ritmo inferior ao observado no ano anterior. Entre janeiro e setembro, o comércio criou 191 mil vagas formais, resultado positivo, mas que reforça um processo de ajuste gradual — e não de retração abrupta — da atividade. Nesse contexto, a articulação institucional ganhou peso adicional na agenda do setor. Segundo o gerente-executivo da CNDL, o comércio e os serviços hoje contam com uma representação mais estruturada junto ao governo federal e ao Congresso Nacional, especialmente por meio da Frente Parlamentar de Comércio e Serviços. “É um trabalho transparente, extremamente republicano, em que senta-se o setor produtivo com o poder público e se constrói ali as soluções para as demandas de cada setor.” Confira a entrevista.

AGÊNCIA DC NEWS – Como você avalia o ano de 2025 para o varejo lojista brasileiro? 
DANIEL SAKAMOTO – É importante começar dizendo que o ano de 2024 foi muito bom para o varejo, o melhor em 12 anos. Foi um ano de recuperação pós-pandemia, aquela retomada realmente de um varejo muito forte. Se 2024 foi um ano de muito crescimento, 2025 é um ano de desaceleração e pouco crescimento. Devemos ter, no final das contas, um ano positivo, mas muito menor do que foi 2024. Nossa análise não pode deixar de mencionar a Selic como elemento fundamental nessa equação. Os juros altos representam crédito mais caro, tanto para o lojista quanto para o consumidor. Portanto, tivemos um ano de maior dificuldade de obtenção de crédito. O varejo essencial como alimentação, higiene pessoal e farmácia, mostrou maior resiliência. Já no caso do varejo de bens duráveis, que está mais vinculado a valores mais altos e a concessão de crédito, apresentou maiores dificuldades. Além disso, estamos num período de recorde de inadimplência, que são aqueles consumidores que estão com contas já vencidas, e recorde também de endividamento das famílias, que é a quantidade de famílias que estão com dívidas dentro do seu orçamento familiar. Isso tudo trouxe um cenário que não é ruim, mas que poderia ter sido melhor se as condições estivessem mais favoráveis para o consumo e até mesmo para o empresário, que precisa realmente da concessão de crédito para investimento, para fazer capital de giro, para estoque e tudo mais.

AGÊNCIA DC NEWS – Além dos juros, crédito e inadimplência, existem outros fatores que influenciaram diretamente nesse cenário e que valeriam a pena ser citados? 
DANIEL SAKAMOTO – O varejo é muito dinâmico, ou seja, ele é volátil e muda de acordo com movimentações no mercado. Por exemplo, o tarifaço do Trump talvez tenha tido algum tipo de impacto. A questão da forte atuação de marketplaces estrangeiros aqui no Brasil também pode ter tido algum tipo de impacto. Então, o varejo sofre esses impactos de maneira dinâmica, e a gente tem que lembrar que o varejo é muito amplo. Quando falamos de varejo, podemos estar falando de alimentação, automóvel, roupas, calçados, acessórios ou produtos eletrônicos. Cada um desses segmentos reage de uma maneira diferente. O que verificamos é que, cada vez mais, o varejo está diretamente conectado com questões econômicas, políticas e sociais. Após a pandemia, surgiu um novo consumidor, que está mudando cada vez mais rápido e entrando muito numa questão que chamamos de omnivarejo. É aquele varejo onde o consumidor busca maior convergência do mundo físico com o digital. As empresas que sabem lidar com esse novo consumidor, estão conseguindo bons resultados. Mas uma grande parte do varejo que não está conseguindo ainda fazer a sua transformação digital e se conectar com esse novo consumidor, tem tido dificuldade. 

AGÊNCIA DC NEWS – Você acha que, em 2025, particularmente por ser o primeiro ano do novo mandato de Donald Trump, tivemos um aumento da influência de fatores externos em nossa economia? 
DANIEL SAKAMOTO – O Trump afetou todo tipo de questão, não só no Brasil como no mundo todo. Seja o envolvimento dele para tentar interferir e amenizar problemas de guerras, em Israel ou na Ucrânia, a atuação dele sempre tem algum tipo de impacto. Seja na questão da defesa da economia americana com os tarifaços e a forma dura como ele tem negociado tarifas, certamente tem. Mas o varejo brasileiro está acostumado a viver numa crise constante. Aqui no Brasil, infelizmente, nos acostumamos a ter muito tipo de turbulência, o tempo inteiro. Então, o varejista sabe lidar com isso tranquilamente. 

AGÊNCIA DC NEWS – O comportamento de algum segmento específico do varejo chamou a sua atenção este ano? 
DANIEL SAKAMOTO – Os dados mais atualizados que temos, apresentados pelo IBGE, são até outubro. Numa das pontas, com destaque, temos móveis, eletrodomésticos e produtos farmacêuticos, com um acumulado positivo de vendas no ano. Do outro lado, com uma retração, vemos os atacadistas de alimentos e bebidas, veículos e livros, jornais e artigos de papelaria. No meio termo, temos hipermercados e supermercados, praticamente empatados em relação ao ano passado. Roupas e calçados um pouco acima, material de construção praticamente empatado. Então, cada segmento tem o seu resultado e precisamos olhar um com mais destaque do que outros. 

AGÊNCIA DC NEWS – Como o setor lojista se preparou pra este final de ano? 
DANIEL SAKAMOTO – Nossas pesquisas de intenção de compras reafirmaram aquilo que a gente já sabe há bastante tempo, o período de novembro e dezembro é o melhor de venda para o comércio, independentemente do setor, é um período que vende tudo. A Black Friday, que deixou de ser por um dia e passou a ocorrer durante todo o mês de novembro, como um mês de promoções, se mostrou muito forte este ano. Os dados ainda estão sendo consolidados mas, realmente, a Black Friday, para quase todos os setores, teve um resultado muito positivo, e o Natal também vem nessa esteira. Quando a gente compara com 2024, vemos que existe uma pequena retração da quantidade de consumidores que afirma que vai às compras no Natal mas, em termos de movimentação financeira, vai ser maior do que no ano passado, especialmente por conta da inflação que, apesar de estar controlada, ainda é na casa de 4%, 5%, 6%, chega até 10%, de acordo com o segmento. Portanto, continua sendo uma data fortíssima, os lojistas se prepararam muito, e o segredo hoje do varejo, eu posso dizer que é a eficiência. O varejista que vai ter bons resultados, muitas vezes, não é o varejista que vende mais, é o varejista que vende melhor, que comprou os produtos na melhor condição, que vai vender na melhor condição, essa eficiência tem um peso muito maior do que o faturamento, em si. 

AGÊNCIA DC NEWS – E qual o papel do e-commerce, nesse contexto?
DANIEL SAKAMOTO – Bom, o e-commerce está cada vez mais relevante na perspectiva do varejo brasileiro. Especialmente após a pandemia, os números estão crescentes e muito fortes do brasileiro se acostumando, se tornando cliente recorrente e valorizando cada vez mais a experiência digital. Isso não significa que a experiência em loja física esteja perdendo relevância. Na verdade, o consumidor está buscando essa convergência, essa conveniência, dele poder fazer as compras no físico e no digital, cada um na sua jornada. Tem gente que gosta de pesquisar em loja física, pegar o produto, experimentar e depois comprar online. Tem gente, pelo contrário, que gosta de ficar pesquisando na internet, depois vai lá comprar na loja física. Outros gostam de fazer isso ao mesmo tempo que estão ali na loja física, mexendo no celular, comparando e fazendo. Então, essa conveniência tem sido realmente uma demanda do consumidor, e a transformação digital é um caminho sem volta. Acho que ainda estamos engatinhando na transformação digital aqui no Brasil. A gente vê que os grandes varejistas estão indo muito bem nisso, mas o varejo, de modo geral, ainda tem muito a caminhar nesse processo, que não é simplesmente você ter uma loja online. Já superamos essa fase. É você ter uma experiência online conectada com o seu estoque, com a sua loja, com a velocidade, a segurança e o conforto que o consumidor está procurando. 

AGÊNCIA DC NEWS – Quais as perspectivas do varejo lojista para 2026? 
DANIEL SAKAMOTO – De maneira geral, a perspectiva para 2026 é positiva. Acredito que deva ficar no meio do caminho, não vai ser tão bom quanto 2024, nem tão desacelerado como foi 2025. Talvez, 2026 fique entre esses dois anos, porque temos uma perspectiva de melhora nos juros. Não existe certeza, mas a sinalização é de que os juros devem começar a baixar, mas vão baixar lentamente. Então, vamos ter ainda um cenário de restrição no crédito, mas acho que teremos elementos mais estáveis. A gente imagina que o consumidor vá retomar seu apetite e a sua confiança pelo consumo por conta de uma estabilidade econômica que as decisões políticas do Banco Central estão indicando. Mas temos que ficar atentos a dois elementos importantes: o ano que vem é ano de Copa do Mundo e eleição. Copa do Mundo costuma gerar bons resultados para diversos segmentos do varejo, são 30 dias em que o consumo aumenta, em diversos setores. Tem gente que se prepara para a Copa do Mundo trocando televisão, geladeira, etc. Muitas empresas fazem investimentos em bares, restaurantes e hotelaria, para poder aproveitar esse período, então deve gerar bons números. A eleição é aquela incógnita. Prevemos que seja uma eleição polarizada, mais uma vez, mas é um cenário já previsto e que, muitas vezes, também gera muito retorno financeiro para alguns segmentos. Então, é uma perspectiva de crescimento moderado para 2026. Destaco que, cada vez mais, no varejo que a gente tem hoje, os bons resultados dependem de eficiência operacional. Eficiência operacional na gestão do seu negócio, na hora de fazer suas compras da indústria, na hora de fazer suas ofertas e estratégias de venda. 

AGÊNCIA DC NEWS – Quais as maiores ameaças para 2026? 
DANIEL SAKAMOTO – A eleição pode ser uma oportunidade ou ameaça, porque a gente não sabe exatamente como vai transcorrer o processo eleitoral, pode ser tranquilo ou muito turbulento. Já a questão da instabilidade da política externa é muito baseada nos Estados Unidos, que são muito imprevisíveis. É difícil mapear exatamente para que rumo vai o presidente Trump, ou seja, é uma tranquilidade hoje e daqui a dois meses pode mudar. A questão das guerras, que a gente viu durante alguns anos sendo um fator muito importante, estamos perdendo um momento de melhor perspectiva desses conflitos internacionais. Com esse cenário internacional turbulento, o varejo brasileiro mantém a sua resiliência. Então, se houver alguma crise internacional que faça o dólar disparar, a gente sabe que o Brasil sabe lidar com essa volatilidade do dólar, não chega a ser algo que vai impactar tão forte. Estamos cada vez mais conectados ao comércio internacional, cada vez mais consumindo produtos chineses que chegam a todo momento, cada vez com mais qualidade e com preço competitivo. Então, as questões internacionais podem sim ser uma ameaça, mas o varejo sabe lidar, aprendeu a lidar com essa volatilidade com mais tranquilidade.

AGÊNCIA DC NEWS – Na sua visão, quais os principais impactos que a reforma tributária vai causar no comércio? 
DANIEL SAKAMOTO – A reforma tributária talvez seja o tema mais complexo que a gente tenha tratado na defesa institucional do setor de comércio e serviços, porque ela foi aprovada mas está em fase de regulamentação, e agora vai entrar na fase de transição, que vai começar a mostrar os resultados mais efetivos. O que percebemos é que o setor de serviços deve ser impactado com tarifas maiores. A reforma tributária veio para tentar equilibrar um pouco, tirar o peso de impostos da cadeia da indústria e distribuir um pouquinho esses impostos mais para a área de serviços, talvez um pouco para o comércio. No fundo, temos que lembrar sempre que o lojista é um intermediador no recolhimento de impostos. Se ele começar a pagar mais imposto, ele vai passar esse imposto para o consumidor. O lojista faz esse processo de recolher os impostos para o governo, trabalha para o governo nesse sentido. Se houver realmente o aumento que alguns segmentos estão esperando, isso vai se traduzir em repasse para o consumidor, em perda de competitividade, em inflação, em desaceleração da economia e impacto no PIB. Então, é isso que vamos começar a olhar com atenção nessa fase de transição, para ver realmente onde as mudanças vão impactar mais e que tipo de solução é viável.

AGÊNCIA DC NEWS – Como você avalia a relação do setor lojista com o governo, no cenário de 2025? 
DANIEL SAKAMOTO – O setor de comércio e serviços, de maneira geral, nunca esteve tão bem representado em nível federal. Posso falar aqui em Brasília, porque hoje temos algumas frentes parlamentares que são mais vocacionadas à defesa desse setor. A CNDL, junto com as associações comerciais e outras entidades, tem uma relação muito próxima com a Frente Parlamentar de Comércio e Serviços. É uma frente que tem deputados e senadores que, semanalmente, se reúnem para ouvir do setor quais são as demandas, as pautas e as preocupações. Esses parlamentares são os porta-vozes do setor nas discussões no Congresso. Então, esse é um trabalho transparente, extremamente republicano, em que senta-se o setor produtivo com o poder público e se constrói ali as soluções para as demandas de cada setor. Da mesma maneira que, durante muitos anos, existiu a Frente Parlamentar do Agronegócio, a Frente Parlamentar da Indústria, atualmente a gente tem uma frente parlamentar forte e bem organizada para defender o setor de comércio e serviços. É um trabalho diário em que há vitórias e derrotas, há empates e nem tudo é possível fazer mas, pelo menos, é feito um trabalho sério de representação desse setor que é tão relevante para a economia. 

AGÊNCIA DC NEWS – E sobre os projetos de políticas públicas setoriais que a CNDL desenvolve? 
DANIEL SAKAMOTO – O nosso trabalho não é olhar de maneira específica, mas de um modo geral. Quando falamos em representação do setor, as principais políticas públicas que impactam o lojista, sem dúvida alguma, estão relacionadas a questões tributárias, além das questões de segurança pública, que também impactam demais o varejo. Então, todo tipo de projeto, todo tipo de discussão no Congresso que tem a ver com segurança pública, merece nossa atenção e acompanhamento. Projetos relacionados à inovação, e agora não se fala em outra coisa que não seja inteligência artificial, para nós têm muito valor. Queremos colocar o olhar do empresário lojista dentro dessas discussões para entender como isso o afeta, como isso pode beneficiá-lo ou de que maneira isso acaba prejudicando. Não fazemos esse trabalho sozinhos, mas com outras entidades, e é um trabalho muito organizado. Nunca estivemos tão fortes nem tão preparados para sermos protagonistas no debate sobre inteligência artificial e como isso impacta o varejo, qual é o desafio, qual é o risco de fazer uma legislação muito restritiva, ou muito permissiva, ou muito punitiva. Os parlamentares nos dão esse espaço e construímos juntos os posicionamentos.  

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ESPECIAL Comércio Histórico. Padaria Palmeiras, em uma antiga área rural, 5 mil passam todo dia no negócio centenário https://agenciadcnews.com.br/especial-comercio-historico-padaria-palmeiras-em-uma-antiga-area-rural-5-mil-passam-todo-dia-no-negocio-centenario/ https://agenciadcnews.com.br/especial-comercio-historico-padaria-palmeiras-em-uma-antiga-area-rural-5-mil-passam-todo-dia-no-negocio-centenario/#respond Mon, 22 Dec 2025 20:20:00 +0000 https://agenciadcnews.com.br/?p=112658 Continuar lendo ESPECIAL Comércio Histórico. Padaria Palmeiras, em uma antiga área rural, 5 mil passam todo dia no negócio centenário]]> [AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
“Vende-se a chácara em um dos subúrbios desta capital.” Assim dizia um anúncio de jornal, publicado em 1872. Sim, o futuro bairro de Santa Cecília, no miolo da capital paulista, já foi chamado de subúrbio. Naquela área ficava a Chácara das Palmeiras, onde se vendiam laranjas e de onde fugiam animais – e também, em tempos de escravidão, se “alugavam crianças ou moleques que sirvam para apanhar chá”. As chácaras da região, áreas rurais, foram se transformando em lotes urbanos. Hoje, é difícil imaginar cenário mais urbano que o do Elevado Presidente João Goulart, o popular Minhocão. Debaixo dele, na praça Marechal Deodoro, fica uma padaria que completou 100 anos em meados de 2025. A Padaria e Confeitaria Palmeiras ficou em segundo lugar, entre os estabelecimentos da região central, na Padocaria 2025, premiação que reúne 900 padarias da capital e nesta edição teve 65 mil votos. Agora, recebe o Prêmio Comércio Histórico 2025, da AGÊNCIA DC NEWS e da Associação Comercial de São Paulo.

Antes que se pergunte, o nome da padaria foi escolhido pela chácara (e pelas palmeiras que ornavam a região) e não pelo time de futebol. Apesar de o estádio (Allianz Parque) ficar a menos de meia hora do local. Nem seria possível, porque o Palmeiras, o time, ganhou esse nome apenas em 1942 – até então, e desde 1916, era Palestra Itália. A mudança ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil entrou no conflito contra o chamado Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Para não deixar dúvidas, o cardápio da casa inclui seis beirutes com nomes de times tradicionais paulistas: Corinthians, Juventus, Palmeiras, Portuguesa, Santos e São Paulo. A casa também oferece um conhecido sanduíche de rosbife e lanches (na baguete, no prato ou natural) que trazem nomes de bairros ou ruas: Brás, Lapa, Vila Madalena, Pompeia, Angélica, Barra Funda, Santa Cecília… E cidades da Grande São Paulo (Barueri, Santo André, São Bernardo e São Caetano).

Mas, entre as pizzas, reina justamente a Palmeiras. Borda de catupiry, calabresa, presunto, ovos, muçarela, bacon, pimentão e azeitonas – R$ 152,90 a pizza grande, R$ 26,90 o pedaço. É o carro-chefe da casa. Segundo o gerente do estabelecimento, Wagner de Melo Martins – que é são-paulino –, diariamente são vendidas de 80 a 100 pizzas, e até 120 nos fins de semana. Pão francês? De 6 mil a 7 mil/dia, assados no forno que não para. São três turnos, das 6h às 14h, das 14h às 22h e das 22h às 6h (horário de abertura ao público – e vai até as 23h). Lanches, pizzas, beirutes e pratos em geral para atender as 5 mil pessoas que passam por lá todos os dias – população equivalente a 1,3 mil municípios brasileiros, pelos dados do Censo de 2022. A padaria e confeitaria, além de conhecida, fica em local estratégico: a meio quarteirão da estação Marechal Deodoro do metrô (Linha 3-Vermelha).

Três anos atrás, em dezembro de 2022, o estabelecimento abriu um salão anexo, mais reservado, destinado principalmente a eventos. É quase um espaço à parte, separado da agitação dos balcões. E onde fica a única foto antiga da Palmeiras, de 1955. O local havia passado por uma reforma geral em 2002, pouco antes da troca de dono. Os atuais sócios estão lá desde 2004. O gerente da casa, Wagner de Melo Martins, acompanhou a transição. Vindo de Parnamirim (estimados em 272 mil habitantes em 2025, segundo o IBGE), no Rio Grande do Norte, chamado por um tio que já trabalhava lá, ele conseguiu seu primeiro emprego, aos 17 anos, em 2001. E até agora único – é o segundo com mais tempo de casa (o balconista Raimundo Nonato passou dos 30 anos), em um total de 80 funcionários. Começou entregando comandas – que ainda eram de papel – aos clientes que entravam. Passou por todas as áreas. “Fui aprendendo as coisas”, afirmou. Se necessário, pode desempenhar qualquer função. Questão de iniciativa, segundo Wagner, que vê com preocupação alguns jovens que chegam para trabalhar e não demonstram a mesma curiosidade. “Eles não têm atitude.”

Os segredos de uma casa centenária, segundo o gerente, passam por dois fatores: qualidade de produto e atendimento. “Isso é primordial para ter sucesso.” É esquentar o pãozinho para um cliente, garantir uma oferta de vinho para quem quiser acompanhar a pizza. “Tem pessoal que vem pegar pizza lá da Zona Leste”, disse Wagner. “Outro dia, vieram de Ermelino Matarazzo para buscar três pizzas.” Uma, claro, era a Palmeiras. Para quem não conhece, a padaria fica na Zona Oeste. Isso quer dizer que alguém atravessou a cidade e percorreu de 25 a 30 quilômetros para comprar uma pizza. Três. Também é habitual receber antigos funcionários da Rádio Globo, que ficava ali perto, na rua das Palmeiras. O gerente conta que há clientes que aparecem há mais de 40 anos. Ao mesmo tempo, o perfil da clientela mudou muito desde os tempos em que se ia até a padaria apenas para comprar pãozinho. “Temos que estar preparados no mercado.” Ficar em segundo na Padocaria 2025 é um reconhecimento, mas sempre é possível melhorar. “Vamos trabalhar para ser o primeiro no ano que vem.”

Na antiga região de propriedades das famílias ricas, em geral produtoras de café, dona Maria Angélica Souza Queiroz foi dona da Chácara das Palmeiras. Tinha 48 anos e dez filhos quando perdeu o marido, Francisco Aguiar de Barros (filho de Bento Paes de Barros, o Barão de Itu), em agosto de 1890, aos 51. Hoje, a avenida Angélica e a alameda Barros formam esquina a 300 metros da padaria Palmeiras. E a história segue em frente.

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Participação da cultura no total de empresas avança de 8% para 8,6% e já responde por 9,5% dos MEIs https://agenciadcnews.com.br/participacao-da-cultura-no-total-de-empresas-avanca-de-8-para-86-e-ja-responde-por-95-das-meis/ https://agenciadcnews.com.br/participacao-da-cultura-no-total-de-empresas-avanca-de-8-para-86-e-ja-responde-por-95-das-meis/#respond Mon, 22 Dec 2025 11:18:43 +0000 https://agenciadcnews.com.br/?p=112426 Continuar lendo Participação da cultura no total de empresas avança de 8% para 8,6% e já responde por 9,5% dos MEIs]]> [AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Mais empresas e menos receita. Assim se resume a participação do setor cultural no universo CNPJ brasileiro, de acordo com pesquisa recém-divulgada pelo IBGE cobrindo o período entre 2013 e 2023. O número de empresas variou positivamente (de 8% para 8,6% em relação ao total de companhias ativas no Brasil). Para efeito de comparação, nos países da OCDE essa média é de 7%. Esse crescimento não foi acompanhado, no entanto, nas receitas. A participação delas no faturamento de todos os negócios recuou de 7,7% para 5,6%, com receita líquida estimada de R$ 910,6 bilhões.

“Em termos de orçamento, o setor cultural não é prioridade. Os gastos públicos são muito baixos em relação a outros setores”, afirmou Leo Morel, músico profissional, pesquisador de cultura e professor de MBA na FGV-Rio. Pode não ser prioridade, mas o volume alcançou níveis recordes nos últimos anos. Em termos federais, os principais recursos públicos para a atividade cultural são a Lei Rouanet e a Lei Paulo Gustavo. A primeira, criada no início dos anos 1990, injetou R$ 3 bilhões no setor em 2024, por meio de renúncia fiscal, o maior valor da série histórica. Este ano, o volume está em R$ 2,3 bilhões. Mesmo inferior ao ano passado, é equivalente a 2023 e o segundo maior da história.

O recuo de quase 24% na Rouanet foi de certa forma compensado pela Lei Paulo Gustavo. Criada em 2022 para minimizar os efeitos da pandemia de covid 19 sobre o setor, ela destinou investimentos de R$ 3,8 bilhões de forma direta e descentralizada – do Ministério da Cultura foi enviado a Distrito Federal, estados e municípios. O prazo para uso do dinheiro, que originalmente era até o fim de 2023, foi prorrogado para o fim de 2024 e novamente estendido, até o próximo dia 31 de dezembro. Além delas, há inúmeras leis estaduais e municipais. “Os recursos ficaram acima da inflação no último ano, o que acaba sendo uma notícia positiva”, afirmou Morel.

RETORNO – O ponto central de quem pesquisa e atua na área é mostrar que o investimento traz alto retorno. Pesquisa divulgada no ano passado pela FGV Projetos (considerando recursos aplicados apenas no estado do Rio de Janeiro) afirmou que para cada R$ 1 investido em cultura via Lei Paulo Gustavo o retorno superou R$ 6. O estudo do IBGE, deste ano, também mostra que o setor cultural se destaca em termos de geração de empregos e salários. No ano passado, a cultura empregava 5,9 milhões de pessoas, a máxima da série histórica iniciada em 2014. O total de salários pagos anualmente (ano-base 2022) foi de R$ 102,8 bilhões, ou 4,5% da massa salarial, o equivalente a um salário médio mensal de R$ 4.658. É um número 31,5% superior à média dos salários (R$ 3.542), segundo a pesquisa.

Para o analista socioeconômico do setor de disseminação da informação do IBGE, Jefferson Mariano, a evolução da cultura no país está ligada a dois fatores principais: o aumento da renda e a escolaridade. “Tem o aspecto relacionado ao crescimento da atividade econômica, que fez as pessoas terem mais acesso à cultura”, disse. O especialista pondera, contudo, que na macroeconomia “a contribuição da cultura ainda é periférica e ainda está distante dos outros setores”. Uma das razões que ele destaca para isso é que gastos com alimentação, educação e saúde ainda são prioridades entre as famílias. “Sobra pouco orçamento para esse tipo de despesa [gastos com cultura].” Outro fator importante, que Mariano observa, é que a cultura ainda está limitada às camadas mais altas da população. “Além de ser secundária na economia, é objeto de alcance da população com renda mais elevada”, afirmo. “Ainda muito restrita entre a população de baixa renda.”

INFLAÇÃO DA CULTURA – O IBGE também elabora um Índice de Preços de Cultura (IPCult), que acompanha os valores de uma cesta de bens e serviços com 30 subitens culturais em seis categorias. Desde 2020, esse índice teve variações menores do que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação — ou seja, os produtos culturais encareceram menos ao longo dos últimos em relação aos outros setores. Entre 2020 e 2024, a variação média anual do IPCult foi de 3,1%, ante 5,9% do IPCA. No ano passado, o IPCult foi de 2,8%, contra 4,8% do IPCA.

Em relação aos Microempreendedores Individuais (MEI) que atuam em cultura, o Cempre inclui no setor 72 CNAEs (Classificação Nacional de Atividades Econômicas). A cultura concentra 9,5% de todos os MEIs no país, ou 1,4 milhão de CNPJs. Os principais CNAEs na análise são design e serviços criativos, que abrangem 44,9% das atividades econômicas consideradas culturais, inclusive publicidade, artes visuais e artesanato. Mariano, do IBGE, diz que são acessórios importantes para o setor cultural. “Acabam contribuindo para outras áreas, como editoração, música e espetáculos.”

Leonardo Athias, coordenador do estudo do IBGE, afirma que as informações das pesquisas por empresa mostram mudanças estruturais no setor em dez anos. Segundo ele, tiveram ganho de importância atividades como cinema, vídeos e TV, e também arquitetura e publicidade. Por outro lado, “há perda em setores ligados ao livro, comércio de equipamentos de informática e comunicação”. Na balança comercial do setor, a China respondeu por mais da metade (55,6%) das importações, seguida por EUA (6,3%) e Alemanha (5,0%). Cerca de um terço do valor importado (35,1%) esteve ligado a aparelhos eletrônicos, sobretudo microfones, alto-falantes e smartphones.

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Desaceleração do PIB global para 3,1% indica que 2026 será o ano do ajuste – não da expansão https://agenciadcnews.com.br/desaceleracao-do-pib-global-para-31-indica-que-2026-sera-o-ano-do-ajuste-nao-da-expansao/ https://agenciadcnews.com.br/desaceleracao-do-pib-global-para-31-indica-que-2026-sera-o-ano-do-ajuste-nao-da-expansao/#respond Sun, 21 Dec 2025 11:18:54 +0000 https://agenciadcnews.com.br/?p=112452 Continuar lendo Desaceleração do PIB global para 3,1% indica que 2026 será o ano do ajuste – não da expansão]]> [AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
A economia global entrará em 2026 em marcha mais lenta, mas ainda em movimento. As projeções constam do Economic Outlook 2026, relatório anual do Mastercard Economics Institute (MEI), que projeta desaceleração do crescimento global dos 3,3% estimados para 2025 aos 3,1% no próximo ano, enquanto a inflação deve recuar de 3,7% para 3,4% no mesmo período. Segundo a análise, não se trata de um cenário de ruptura, tampouco de euforia. O pano de fundo é o de uma economia global que precisa aprender a operar em ambiente menos previsível, pressionada por rearranjos no comércio internacional, pela difusão acelerada de tecnologias – sobretudo inteligência artificial – e por um consumo que migra do excesso para a escolha criteriosa. “A economia global precisará continuar adaptando cadeias de produção e abastecimento, criando desafios para alguns setores e oportunidades para outros”, descreve o relatório. Para empresários do varejo, o desafio será ler esse novo ritmo: crescer menos não significa vender menos, mas vender diferente, com mais estratégia, eficiência e atenção ao comportamento do cliente.

No Brasil, esse movimento global encontra um fator adicional de cautela: o calendário eleitoral. Segundo a análise MEI, 2026 deve repetir um padrão comum a anos de eleição presidencial, com decisões de investimento mais lentas, maior prudência no crédito e um compasso de espera por parte das empresas. A estimativa é que o PIB brasileiro desacelere para 1,5% em 2026, abaixo dos 2,2% estimados para 2025 e dos 3,4% registrados em 2024. Com o pé no freio, o instituto estima que a taxa básica de juros encerre 2026 em 12%. A expectativa de queda gradual dos juros ajuda a sustentar o consumo, mas não elimina a incerteza que costuma travar planos de expansão e apostas de longo prazo. Segundo o economista-chefe para América Latina e Caribe da Mastercard Economics Institute, Gustavo Arruda, o crescimento econômico tende a perder força, enquanto o consumo das famílias segue como principal sustentação da atividade, amparado pelo mercado de trabalho e por políticas de renda. “Apesar dos ventos contrários, mercados de trabalho resilientes e apoio fiscal direcionado estão mantendo o consumo em um ritmo sólido”, disse. Para o pequeno e médio empresário, a orientação é pelo equilíbrio: preservar caixa, evitar movimentos precipitados e ajustar expectativas a um ambiente menos tolerante a erros.

Ainda assim, 2026 não se desenha como um ano estéril de oportunidades. No Brasil o mercado de trabalho deve continuar apoiando o consumo, mesmo com a expectativa do MEI de uma leve desaceleração na geração de empregos. Segundo o relatório, a dinâmica salarial deve seguir apoiando o consumo, mas também pode continuar exercendo pressão altista sobre os preços, o que requer atenção. “O consumo tende a se deslocar de forma moderada em direção aos serviços, enquanto os bens duráveis permanecem sensíveis ao crédito.” O MEI projeta inflação de 4,5% em 2026, no limite superior da meta brasileira (4,08% segundo o Banco Central). O agronegócio se destaca como ponto positivo e como fonte de divergência regional. O instituto espera um crescimento razoável do setor, especialmente em polos agrícolas como o Centro-Oeste e partes do Sul e Sudeste. Já os ganhos devem ser mais modestos em regiões urbanas com forte peso de serviços. Confira os cinco principais insights do relatório.

1. Crescimento mais lento, consumo resiliente
O cenário macroeconômico global para 2026 aponta desaceleração coordenada, mas sem ruptura. O Mastercard Economics Institute (MEI) projeta crescimento do PIB mundial de 3,1% em 2026, levemente abaixo dos 3,2% estimados para 2025, indicando um pouso gradual após dois anos de expansão acima do potencial em economias-chave. A inflação global, por sua vez, deve recuar para 3,4% em 2026, frente a 3,9% em 2025, e ainda acima da média histórica pré-pandemia (entre 2,1% e 2,5%) consolidando o processo de desinflação iniciado após os choques pós-pandemia e da guerra no Leste Europeu. Nos Estados Unidos, o MEI estima crescimento de 2,2% em 2026, praticamente estável em relação a 2025, sustentado por consumo ainda robusto, apesar do impacto persistente de tarifas comerciais sobre os preços. Já a China deve desacelerar de 4,8% em 2025 para 4,5% em 2026, refletindo a fragilidade do setor imobiliário e a menor contribuição do comércio exterior. Na Europa, o quadro segue heterogêneo: a Zona do Euro deve crescer 1,2% em 2026, com aceleração puxada por estímulos fiscais e queda gradual dos juros, enquanto o Reino Unido tende a um avanço mais modesto, de 0,9%. Mesmo com crescimento mais contido, o MEI destaca que o consumo global segue como principal amortecedor do ciclo, apoiado por mercados de trabalho ainda relativamente sólidos e pela recomposição gradual do poder de compra em várias economias.

2. Brasil: eleição, juros em queda e investimento travado
Para o Brasil, 2026 se desenha como um ano de crescimento mais fraco, marcado por decisões econômicas em compasso de espera. Segundo o MEI, o PIB brasileiro deve crescer 1,5% em 2026, desacelerando frente aos 2,2% estimados para 2025 e aos 3,4% registrados em 2024. O principal freio vem do investimento, que tende a perder tração em meio à incerteza típica de um ano eleitoral. Mesmo com a expectativa de cortes graduais de juros ao longo do ano – o relatório projeta a taxa básica encerrando 2026 em torno de 12% –, o custo do capital deve seguir elevado o suficiente para postergar decisões de expansão e novos projetos. A política fiscal também entra nesse cálculo: historicamente, o governo concentra gastos no primeiro semestre em anos eleitorais, com foco em transferências sociais, o que sustenta a renda das famílias, mas amplia o debate sobre o equilíbrio das contas públicas. O agronegócio se destaca como ponto positivo e como fonte de divergência regional. Esse ambiente mantém o consumo em pé, mas dificulta um ciclo mais robusto de investimento privado, criando uma economia que cresce apoiada no dia a dia das famílias, enquanto empresas operam com cautela, caixa protegido e planos de médio prazo adiados até que o cenário político e fiscal fique mais claro.

3. O consumidor continua gastando – mas com mais critério
Em 2026, o consumo global não entra em retração, mas muda de forma. Segundo o MEI, o gasto das famílias segue resiliente em diversas economias, porém cada vez mais seletivo, pressionado por juros ainda elevados, inflação de serviços persistente e maior sensibilidade a preço. Globalmente, o instituto projeta que o consumo privado continue crescendo acima do PIB em vários países, sustentado por mercados de trabalho ainda sólidos – mas com clara migração do padrão de gasto. Os dados do Mastercard SpendingPulse indicam avanço mais consistente em serviços e experiências, enquanto categorias duráveis permanecem mais sensíveis às condições de crédito. No Brasil, o consumo privado deve crescer 2,2% em 2026, superando a expansão do PIB, mas com mudança no mix: serviços ganham espaço, enquanto bens de maior valor seguem travados pelo custo do financiamento. O relatório mostra padrão semelhante em economias avançadas. Nos Estados Unidos, por exemplo, o gasto com serviços tende a reaccelerar em 2026, enquanto bens seguem pressionados pela inflação associada a tarifas. Na Europa, consumidores priorizam gastos menores e mais frequentes, com retração relativa de tíquete altos. O resultado é um consumidor ativo, mas mais racional, menos impulsivo e cada vez mais atento à relação entre preço, valor percebido e utilidade imediata – um traço estrutural do pós-inflação que deve marcar o varejo em 2026.

4. Tecnologia virou fator de sobrevivência para PMEs
Em 2026, tecnologia deixa definitivamente de ser vetor de eficiência para se tornar fator de sobrevivência para pequenos e médios negócios, segundo a leitura do Mastercard Economics Institute (MEI). O relatório mostra que a diferença de desempenho entre empresas mais e menos digitalizadas segue se ampliando, especialmente em contextos de crescimento econômico mais moderado. Dados do MEI indicam que, globalmente, PMEs mais expostas a soluções digitais – como pagamentos eletrônicos, e-commerce próprio, gestão de dados e automação operacional –crescem mais rápido do que empresas maiores em diversos setores, mesmo em ambientes de juros elevados e consumo mais seletivo. O estudo também aponta que a participação do comércio eletrônico nas vendas das PMEs avançou em economias mais maduras, enquanto permanece estagnada ou recuou em partes da América Latina, onde a dependência de canais físicos e do dinheiro em espécie ainda é maior. Esse descompasso cria um risco competitivo: mercados onde pequenos negócios não incorporam tecnologia perdem participação relativa frente a players mais eficientes, inclusive internacionais. Além disso, o MEI destaca que investimentos em inteligência artificial, meios de pagamento digitais e soluções de análise de dados estão começando a gerar ganhos de produtividade mensuráveis, mas de forma desigual. Em 2026, essa assimetria tende a aumentar, penalizando negócios que tratam tecnologia como custo e não como estratégia.

5. Tarifas mudam preços, cadeias e concorrência
Em 2026, o comércio global entra em uma fase de reorganização forçada, impulsionada por tarifas, realinhamento geopolítico e maior fragmentação das cadeias produtivas. O Mastercard Economics Institute aponta que os Estados Unidos devem crescer 2,2% em 2026, ritmo semelhante a 2025, mas com inflação ainda pressionada em 2,9%, em grande parte devido ao impacto tarifário sobre bens importados. Já a China desacelera: o crescimento projetado cai de 4,8% em 2025 para 4,5% em 2026, refletindo menor demanda externa, fragilidade do setor imobiliário e um consumo doméstico mais seletivo. A Europa, por sua vez, cresce de forma desigual: a zona do euro avança 1,2%, enquanto países mais expostos a tensões fiscais e comerciais seguem com recuperação lenta. O relatório destaca que tarifas mais altas não apenas encarecem produtos finais, mas alteram rotas comerciais, deslocando fluxos para países intermediários e criando novas assimetrias de preço. Para o varejo, o efeito é indireto, porém concreto: maior volatilidade de custos, repasses fragmentados e concorrência mais dura entre marcas que operam com cadeias globais versus aquelas com produção ou abastecimento regional. Em um cenário ainda marcado pelas guerras na Europa e pelo risco de novas escaladas comerciais, 2026 tende a consolidar um comércio menos eficiente, mais caro e estruturalmente mais incerto.

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Beer4U cresce 25% em 2025, planeja festival próprio e retoma beer store em mercado artesanal aquecido https://agenciadcnews.com.br/beer4u-cresce-25-em-2025-planeja-festival-proprio-e-retoma-beer-store-em-mercado-artesanal-aquecido/ https://agenciadcnews.com.br/beer4u-cresce-25-em-2025-planeja-festival-proprio-e-retoma-beer-store-em-mercado-artesanal-aquecido/#respond Sat, 20 Dec 2025 13:09:21 +0000 https://agenciadcnews.com.br/?p=112128 Continuar lendo Beer4U cresce 25% em 2025, planeja festival próprio e retoma beer store em mercado artesanal aquecido]]> [AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
O melhor ano da Beer4U acontece em um Brasil de 2 mil cervejarias – em 2024, foram exatamente 1.949 cervejarias registradas, alta de 5,5% em relação ao ano anterior e de 487% em dez anos (existiam 332 em 2015). Os estados de São Paulo (427 cervejarias) e Rio Grande do Sul (349) lideram o ranking e concentram 40% do total. Em termos de volume, são 15,3 bilhões de litros produzidos, praticamente estável em relação ao ano anterior. Os dados, do Anuário da Cerveja 2025 (ano-referência 2024), explicitam um mercado aquecido e curioso por novidades. Atento a esse movimento está o sócio-fundador da Beer4U, Eri Soares, que relata crescimento de 25% no faturamento da rede em 2025, apoiado na volta gradual do trabalho presencial e na consolidação do modelo de bar de chope artesanal de bairro. “O home office está diminuindo e as empresas estão voltando ao presencial, e isso reflete diretamente no nosso movimento”, disse Soares ao explicar por que este se tornou o melhor ano da história da franquia.​​

A trajetória da Beer4U começa em 2012, quando Soares ainda trabalhava com hardware e automação comercial e percebeu, em uma viagem a Monte Verde (MG), que havia espaço para o varejo especializado em cervejas artesanais. De volta a São Paulo, ele lançou primeiro um e-commerce. Ao cadastrar cerca de 500 rótulos sem estoque próprio, descobriu que o consumidor de rótulos especiais comprava unidades variadas, e não caixas fechadas. Ele teve de buscar garrafas no varejo à medida que os pedidos entravam. “Todo mundo estava muito interessado em experimentar”, disse. Em uma época em que a capital paulista tinha apenas três ou quatro pontos relevantes de venda especializada, a Beer4U abriu na Zona Oeste a primeira loja física em 2013. Ainda sem chope, era uma beer store consultiva em que o slogan “cerveja para todos” significava variedade para bolsos e perfis de paladar.​

A virada para o modelo atual veio quando o chope artesanal passou a ganhar escala entre 2017 e 2019, impulsionado pelo câmbio desfavorável às importadas e pelas melhorias na cadeia de insumos nacionais. Com a adoção de câmaras frias, que ampliaram a vida útil de um produto altamente perecível, as cervejarias brasileiras passaram a produzir mais chope do que garrafas, e o consumidor migrou para o bar de bairro para buscar frescor em diferentes estilos. Das IPAs (com amargor e aroma intenso de lúpulo) – que dominam a preferência – até as sour (de acidez pronunciada), passando por uma infinidade de estilos e combinações a um preço menor que o de rótulos importados.

Eri Soares: “A ideia é estar onde o cliente está. Seja no bar, no evento ou em casa”
(Andre Lessa / Agência DC News)

PANDEMIA – A Beer4U acompanhou esse movimento e deixou de ser apenas uma beer store. Abriu uma unidade própria (junto ao metrô Vila Madalena, no Sumarezinho) e passou a formatar o modelo de franquias com até 20 torneiras de chope. Com sete unidades abertas em seis meses em 2019, a rede entrou em 2020 com forte expectativa. A pandemia, entretanto, interrompeu a escalada presencial. Mas não derrubou a operação: sem fechar nenhuma unidade naquele primeiro ano, a Beer4U converteu estoque em vendas de growlers (recipientes reutilizáveis de 1 litro) e delivery. O segundo ano da crise sanitária, porém, foi mais duro, com a abertura de canais diretos de venda pelas cervejarias ao consumidor final e a saturação do home office, que afastou o público do happy hour e fez as vendas de e-commerce da rede caírem.​​ De toda forma, a jornada foi de ascensão (tímida, mas contínua) entre 2021 e 2024. Até a retomada do movimento pleno nas unidades da Beer4U em 2025.

Os bares da Beer4U operam com perfil enxuto, em pontos de rua com forte presença de empresas, geralmente com dois funcionários por unidade e tíquete médio de R$ 80 por cliente, apoiando-se em parcerias com hamburguerias e lanchonetes vizinhas para oferta de alimentação, já que a rede optou por não ter cozinha própria. A estratégia permite manter o investimento mais baixo em estrutura e equipe, ao mesmo tempo em que captura o fluxo de quem encerra o expediente presencial. São consumidores de hábitos distintos aos de bares convencionais. Nas palavras de Soares, as unidades são “o bar do bairro”. Estabelecimentos de vizinhança que fidelizam com um serviço enxuto e recebem clientes ​​que frequentam o endereço mais de uma vez por semana. Hoje são oito unidades em operação (uma própria) cujo posicionamento é ser o bar de chope artesanal, em vez de grandes complexos de entretenimento. “Nossos bares atendem muito o entorno. São lugares para tomar um ou dois chopes, em vez de passar a noite”, afirmou Soares.​​

TRÊS FRENTES – Para 2026, a Beer4U prepara três movimentos que miram diversificação de receita, reforço de marca e resgate das próprias origens em um mercado amadurecido. O primeiro é a Beer4U Express, unidade em Perdizes que será base de uma operação dirigida a eventos, oferecendo chope da marca para festas e celebrações particulares, segmento em que a rede ainda não atuava de forma estruturada. O segundo passo (ainda sem data) é o Festival Beer4U, evento cervejeiro para cerca de 250 a 300 pessoas, com ingressos vendidos exclusivamente nas lojas, voltado inicialmente a clientes que já têm relacionamento com a marca, como espécie de ensaio para edições maiores e abertas ao público amplo.​​ O terceiro projeto é também simbólico: a reabertura de uma unidade no modelo de beer store, sem chope, voltada à compra de garrafas e latas, que resgata o formato original da empresa.

Esse resgate da beer store aposta no cliente que quer “pegar a cestinha” e montar o próprio mix, como fazia até 2017 ou 2018, antes da pandemia. O movimento dialoga com a própria evolução do mercado brasileiro, em que o consumidor passou a alternar consumo em casa e no bar e a buscar diversidade de rótulos nacionais. Hábitos moldados por um setor que se diversifica: são 55 mil marcas e mais de 43 mil tipos diferentes de cerveja registrados no país em 2024. Um ambiente competitivo e em expansão, pela ponta da produção, que acaba impulsionando o varejo e fazendo o consumidor receber mais opções a melhores preços. E ao apostar em bares compactos de bairro, em um braço dedicado a eventos e em um festival proprietário, a Beer4U busca capturar diferentes momentos de consumo da mesma base de clientes, num cenário em que microcervejarias e marcas artesanais seguem se multiplicando e disputando torneiras e prateleiras. “A nossa ideia é estar onde esse cliente está. Seja no bar, no evento ou em casa”, afirmou Soares ao resumir o plano de crescimento da rede para os próximos anos.

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